A tarde agonizava em tons de púrpura quando avistamos a silhueta do tio João no caminho. À primeira vista, o quadro era de um ridículo quase cômico: ele se debatia sozinho, os braços agitando-se contra o ar como se conduzisse uma orquestra invisível ou, como supusemos entre risos contidos, se entregasse a mais um de seus excessos etílicos. Meus irmãos e eu, embriagados pela crueldade inocente da infância, mal conseguíamos conter as gargalhadas.
De repente, o movimento tornou-se frenético. João mergulhou no matagal denso, travando uma luta feroz contra um adversário que nossos olhos não alcançavam. O que gelava o sangue não era o que víamos, mas o que não ouvíamos: não havia grunhidos, nem o estalar de galhos secos, nem o rosnar de uma fera. Apenas o silêncio pesado da penumbra, interrompido pelos espasmos de um homem que parecia ser devorado pelo vazio.
Minha mãe surgiu à soleira da porta, o sorriso ainda esboçado no rosto. Mas, em um átimo, a alegria foi drenada de suas feições. Vi a palidez marmórea tomar sua face enquanto seus olhos — outrora ternos — se perdiam em um terror antigo, um medo que parecia vir de gerações passadas. Seus lábios moviam-se em um sussurro inaudível, uma prece desesperada que apenas as mães proferem quando sentem o hálito da morte por perto.
Enquanto rolávamos pelo chão, alheios ao abismo, João soltou um grito que rasgou o crepúsculo. O riso morreu na garganta de todos. Minha mãe persignou-se, a mão trêmula desenhando a cruz no peito.
Ele emergiu da vegetação, coberto pela poeira da estrada, os cabelos em desalento. Olhou para o mato por um longo instante, como se vigiasse a retirada de uma sombra, e caminhou em nossa direção. Naquela rua deserta, o herói de nossas histórias infantis — o homem invencível que sempre superava os obstáculos de cabeça erguida — parecia agora um náufrago da própria sanidade.
Agradeci mentalmente por não haver estranhos por perto para testemunhar tamanha ruína. Ele parou diante de nós, a respiração pesada.
— Vocês viram? — perguntou ele, a voz num fio de navalha.
— O quê, Tio? — respondi, tentando forçar uma normalidade que já não existia.
Ele se inclinou, aproximando o rosto do meu. Não havia o odor acre da cachaça, apenas um bafo quente e denso que me subiu à espinha. Seus olhos não eram mais os do tio brincalhão; eram espelhos que refletiam o brilho sobrenatural da lua cheia que ascendia no horizonte. Com um fervor quase religioso e um olhar flamejante, ele sentenciou em meu ouvido:
— Era, com certeza, um lobisomem!
(Marcio Lima)
Texto Revisto. O original você encontra no link abaixo: https://devaneiosliterariosdolima.blogspot.com/2025/08/era-com-certeza-um-lobisomem-it-was.html

