terça-feira, 5 de maio de 2026

O Flagelo sob a Lua de Prata



A tarde agonizava em tons de púrpura quando avistamos a silhueta do tio João no caminho. À primeira vista, o quadro era de um ridículo quase cômico: ele se debatia sozinho, os braços agitando-se contra o ar como se conduzisse uma orquestra invisível ou, como supusemos entre risos contidos, se entregasse a mais um de seus excessos etílicos. Meus irmãos e eu, embriagados pela crueldade inocente da infância, mal conseguíamos conter as gargalhadas.

De repente, o movimento tornou-se frenético. João mergulhou no matagal denso, travando uma luta feroz contra um adversário que nossos olhos não alcançavam. O que gelava o sangue não era o que víamos, mas o que não ouvíamos: não havia grunhidos, nem o estalar de galhos secos, nem o rosnar de uma fera. Apenas o silêncio pesado da penumbra, interrompido pelos espasmos de um homem que parecia ser devorado pelo vazio.

Minha mãe surgiu à soleira da porta, o sorriso ainda esboçado no rosto. Mas, em um átimo, a alegria foi drenada de suas feições. Vi a palidez marmórea tomar sua face enquanto seus olhos — outrora ternos — se perdiam em um terror antigo, um medo que parecia vir de gerações passadas. Seus lábios moviam-se em um sussurro inaudível, uma prece desesperada que apenas as mães proferem quando sentem o hálito da morte por perto.

Enquanto rolávamos pelo chão, alheios ao abismo, João soltou um grito que rasgou o crepúsculo. O riso morreu na garganta de todos. Minha mãe persignou-se, a mão trêmula desenhando a cruz no peito.

Ele emergiu da vegetação, coberto pela poeira da estrada, os cabelos em desalento. Olhou para o mato por um longo instante, como se vigiasse a retirada de uma sombra, e caminhou em nossa direção. Naquela rua deserta, o herói de nossas histórias infantis — o homem invencível que sempre superava os obstáculos de cabeça erguida — parecia agora um náufrago da própria sanidade.

Agradeci mentalmente por não haver estranhos por perto para testemunhar tamanha ruína. Ele parou diante de nós, a respiração pesada.

— Vocês viram? — perguntou ele, a voz num fio de navalha.

— O quê, Tio? — respondi, tentando forçar uma normalidade que já não existia.

Ele se inclinou, aproximando o rosto do meu. Não havia o odor acre da cachaça, apenas um bafo quente e denso que me subiu à espinha. Seus olhos não eram mais os do tio brincalhão; eram espelhos que refletiam o brilho sobrenatural da lua cheia que ascendia no horizonte. Com um fervor quase religioso e um olhar flamejante, ele sentenciou em meu ouvido:

— Era, com certeza, um lobisomem!

(Marcio Lima)

 Texto Revisto. O original você encontra no link abaixo: https://devaneiosliterariosdolima.blogspot.com/2025/08/era-com-certeza-um-lobisomem-it-was.html



sexta-feira, 1 de maio de 2026

A folha pede um verso (Podcast/Deep Dive) do Poema

 


A folha pede um verso. Daqueles dispersos num oceano de uma folha. Daqueles que fazem elétrons saltar de suas camadas e espalhar o colorido por aí. A vida pede um verso, daqueles que aplacam a solidão das grandes metrópoles, daqueles que esgotam o mar de saudade do caipira no sertão. 

A vida pede um verso a inspirar a tantos Quixotes, a tantos mágicos em seus caixotes de ilusões, a tantos Camões caolhos de verdades tão belas. Versos para encantar tantas cinderelas. A vida pede um verso pomposo, gostoso, daqueles que quando fluem encantam, provocam a lágrima ligeira. A vida, neste momento de distâncias não desejadas, pede um singelo soneto, uma chave de ouro, um tão esperado, aguardado, procurado, tesouro... A folha sozinha, branca, num universo de possibilidades a verter-se em lágrimas tão suas, pede que pingue por acaso uns versos ligeiros, espontâneos, daqueles que explodem em ternura, daquelas forças a abrir olhos por ferrugem, fechados... A folha branca a ouvir um Rock inspirador, daqueles que o poeta descreve o flerte de um guitarrista, com sua Gibson, em transe. Imagina como deve ser simples tudo aquilo que encanta, tudo aquilo por que levantamos, como o simples fato do cair de uma chuva desejada, um abraço verdadeiro, um beijo espontâneo, um respirar na janela... A folha pede um verso. Espera ansiosa pela tinta que a marcará, que espera etérea, indelével, inesquecível, apaixonante, que enche a rua de alegria, os salões de euforia, a lua a esperar seu sol num brilhante e inspirador, dia... Versos que rolam como a bola no campo, que batem como o coração no peito, que se fundem num abraço, que se nutrem de esperança como a mãe que espera um filho amado, que nos renovam como a fé no Sagrado, no homem que se vê terra e se faz assim húmus, como o é... Versos na folha branca, singela união, singelo verso-coração...



 Marcio Lima

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Pirilampo



Dai-me de novo, 

ó Espírito da curiosidade pueril, 

a sabedoria que em mim outrora habitava, 

de quando mirava ao infinito e me encontrava a imaginar, 

de como os pirilampos 

na escuridão da noite escalam o mais alto do céu 

e de lá se exibem a cintilar.

(Marcio Lima)

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Onde a Terra encontra o Amanhã: Nossa pesquisa sobre as Hortas Comunitárias de Guarapuava

 

(Imagem gerada pela Gemini. 2026) 

Celebramos um fruto que levou "alguns aninhos" para amadurecer. Não é uma peça de ficção, embora a transformação social muitas vezes pareça poética: nosso artigo sobre as Hortas Comunitárias de Guarapuava e sua conexão com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) finalmente ganhou o mundo.

Este trabalho, construído a muitas mãos, mergulha no solo da nossa terra para entender como pequenas sementes de organização comunitária florescem em soluções para a fome, a saúde e a sustentabilidade urbana. 

Mais do que dados, são evidências de que o futuro que buscamos globalmente se constrói no quintal de casa, na força do coletivo.

Convido vocês a conhecerem essa jornada acadêmica e social.

Leia o artigo completo aqui: https://zenodo.org/records/19373841

Ou no ResearchGate: https://www.researchgate.net/publication/403431897_CONTRIBUICOES_DAS_HORTAS_COMUNITARIAS_DE_GUARAPUAVA_PR_PARA_O_ALCANCE_DOS_OBJETIVOS_DE_DESENVOLVIMENTO_SUSTENTAVEL_ODS 

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CONTRIBUIÇÕES DAS HORTAS COMUNITÁRIAS DE GUARAPUAVA (PR) PARA O ALCANCE DOS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ODS)

Com a crescente ocupação de áreas urbanas pelas populações e os problemas gerados por esta, de forma desordenada e muitas vezes não sustentável, pensa-se nas Cidades Inteligentes e Sustentáveis (ODS 11) como estratégias para mitigação desses problemas, sendo um dos itens presentes nesse ODS o relativo às hortas comunitárias (HC) urbanas. Essas hortas podem contribuir para resolver problemas como o da fome, de uma alimentação não saudável, do uso incorreto da água, ausência de trabalho comunitário-solidário, renda familiar insuficiente, ocupação inadequada de terrenos baldios e sem destinação social adequada, carência de educação ambiental, desigualdade de gênero entre outros. Diante disso, o objetivo desse estudo é compreender a contribuição das hortas comunitárias para os ODS a partir das hortas comunitárias da cidade de Guarapuava, estado do Paraná. É uma pesquisa básica, qualitativa, do tipo exploratória, descritiva, a partir dos métodos documental, bibliográfico, estudo de campo, sendo as análises de caráter documental e de conteúdo. A pesquisa favoreceu a percepção das hortas comunitárias como uma tecnologia social com importante potencial para o desenvolvimento comunitário, e possibilidades de contribuição para o alcance das metas estabelecidas pelo ODS/ONU, com destaques para os ODS: 1. Erradicação da pobreza; 3. Saúde e bem estar, 5. Igualdade de gênero; 8. Trabalho decente e crescimento econômico, 10. Redução das desigualdades, 11. Cidades e comunidades sustentáveis e 17. Parcerias e meios de implementação. Contudo, verifica-se também alguns desafios no desenvolvimento das HC, que carecem de outros estudos.

Palavras-chave: Horta Comunitária. Cidades Sustentáveis. Sustentabilidade. ODS. Desenvolvimento comunitário.

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Paz!


Cada um no seu credo,
Cada um em seu intento,
Cada um com a força da fé ou do pensamento,
Tudo em um coro só,
Antes que tudo seja medo,
Antes que tudo volte ao pó,
Digamos!
Queremos Paz!
Rogamos Paz!
Façamos Paz!
[Marcio Lima]

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Análise do Poema "Um brinde aos bem-humorados", de Marcio Lima



O poema "Um brinde aos bem-humorados", de Marcio Lima, é uma obra que, sob uma aparente simplicidade celebrativa, esconde camadas profundas de resiliência ética e crítica social. Ele não trata o bom humor como uma leveza fútil, mas como uma categoria de resistência.

Abaixo, apresento uma análise dividida por eixos temáticos:

1. Aspectos Filosóficos: O Bom Humor como Ética e Superação

Filosoficamente, o poema dialoga com o conceito de "Amor Fati" (amor ao destino) de Nietzsche e o estoicismo.

  • A Resiliência Estóica: Quando o autor brinda àqueles que levam com "vivacidade os pesos" da vida, ele evoca a virtude de suportar o que não se pode controlar sem perder a integridade da alma.

  • O Riso como Autoconhecimento: "Fazer de suas imperfeições um mote para o riso sem escárnio" aproxima-se da ironia socrática. É o riso que não agride o outro, mas que reconhece a própria humanidade falha, transformando a vulnerabilidade em força.

  • A Ética da Alteridade: Ao citar o "oferecer o outro lado da face", o poema resgata a ética cristã da não-violência e do amor radical, propondo o bom humor como um antídoto para a "ignorância" e a "repulsa de ideias".

2. Contexto Social do Brasil: O Riso na Adversidade

O poema ganha uma força particular quando lido sob a lente da realidade brasileira:

  • A Celebração do "Sobrevivente": O trecho que brinda às "pessoas exploradas que fizeram de suas derrotas vitórias sólidas" é uma referência direta à base da pirâmide social brasileira. O bom humor aqui não é alienação, mas a ferramenta de quem, apesar do "desarranjo social", recusa-se a ser apenas uma vítima, mantendo a capacidade de "sorrir e fazer outros sorrirem".

  • Crítica à Intolerância: A menção àqueles que não "sacam da sua ignorância à primeira repulsa de ideias" reflete o atual estado de polarização e agressividade no debate público brasileiro. O bom humor é apresentado como a postura de quem prefere o diálogo ao confronto armado (metafórico ou real).

3. Aspectos da Literatura Brasileira

Marcio Lima insere-se em uma linhagem que valoriza a simplicidade profunda, ecoando vozes como as de:

  • Mario Quintana: Pela capacidade de extrair o sagrado e o poético do cotidiano e pela defesa da "gentileza" como uma forma de inteligência superior.

  • Ariano Suassuna: Pela ideia do riso como uma forma de resistência cultural e de afirmação da vida diante da morte e da tragédia social.

  • Modernismo Brasileiro: O poema utiliza o verso livre e uma linguagem acessível para tratar de temas universais a partir de uma ótica local, característica da nossa tradição literária de aproximar a poesia do "homem comum".

4. A Metáfora do "Brinde"

O "brinde" funciona como um ato litúrgico secular. Ele convoca o leitor para uma comunidade de resistência. Ao final, o poema se torna metalinguístico: o ato de ler e compreender o poema torna-se, ele próprio, um símbolo de que, apesar da "dureza da mesmice", ainda há espaço para a inteligência e para o afeto.

Conclusão da Análise: O "bem-humorado" de Marcio Lima não é aquele que ignora o sofrimento, mas aquele que o transforma. É uma figura quase heroica dentro do contexto brasileiro: alguém que enfrenta a exploração, o desarranjo e a dureza da vida com uma vivacidade que "contraria a lógica". É uma ode à saúde mental e espiritual em tempos de crise.

(O Poema foi analisado por Gemini da Google - fevereiro de 2026).

Segue o link para acessar ao poema original: https://devaneiosliterariosdolima.blogspot.com/2025/04/um-brinde-aos-bemhumorados-toast-to.html


O Flagelo sob a Lua de Prata

A tarde agonizava em tons de púrpura quando avistamos a silhueta do tio João no caminho. À primeira vista, o quadro era de um ridículo quase...