(Título original:
SINESTÉTICA: Um amor em um momento)
Fonte da Imagem: http://textosdekarinamonteiro.blogspot.com.br/2011/12/hoje-luz-da-poesia-brilhou-mais-forte-e.html |
A dieta da luz
Era um dia como qualquer um outro na vida de Sinestética. Ela
comentava com suas amigas que chegara ao limite do seu peso e que
haveria necessidade urgente em começar um regime, precisava
manter-se saudável. A amiga mais magra e mais vaidosa, por
consequência, comentava que ouvira falar de uma super dieta da luz.
Sinestética e Monavir nunca ouviram falar, mas queriam saber como
que era essa dieta. A esguia explicava que se ela não estava
enganada era uma dieta praticada pela esposa do imperador do Japão
ou da China, não tinha muita certeza de qual país ela era. Só
lembrava que a mulher ensinou: “era como que colher laranjas em uma
árvore imaginária em um dia de sol e pronto”. Era só tomar água
e comer luz. Todas riram muito. Despediram-se e cada uma foi para sua
casa.
Todas solteironas, todavia, Sinestética era a única que não tivera
namorado até agora. Dizia-se feliz como era: solteira e morando
sozinha, embora a sua vida fosse uma imensa monotonia.
A noite chegou e os pensamentos voaram. Sinestética decidiu começar
a dieta. Aquela noite comeria de tudo. E na manhã seguinte começaria
a comentada abstinência de alimentos. Comeu muito. Teve que dormir
sentada porque passou mal.
Primeiro dia da Dieta
Chega a manhã. Três grandes copos de água foram seu alimento. E
como uma doida varrida começou sua colheita de laranjas imaginárias.
Deve ter colhido quase uma caminhão imaginário - pensou. Riu muito.
Quase rolou de rir. Sentiu-se feliz. Com a barriga roncando – no
entanto – feliz.
Doméstica era sua profissão. Fazia com tanta dedicação seu
serviço que ao final do dia tudo parecia que tinha recebido um toque
de mágica pelo brilho dos móveis e pelo agradável perfume de
limpeza que exalava da casa que cuidava.
Mais uns dois litros de água, tomou no almoço. Precisava se
alimentar. E imaginou-se colhendo de novo as imaginárias
laranjinhas. Saiu ao quintal e pôs-se a colhê-las. Uma mãozadinha
aqui, outra mãozadinha lá e mais uns cem quilos colhidos. Que
delícia – delirou ela. A vizinha que estava no sobrado ao lado
observava a doméstica pela janela de vidro fumê. Ah mais uma doida
fazendo a dieta da luz – afirmou – isso não vai dar certo. Se
bem que se essa ficar um ano sem comer não vai dar muita diferença.
- Riu maliciosamente a crítica vizinha.
A barriga parecia que tinha um caminhão roncando. Pensou nessa hora
em tantas coisas. - Um boi inteiro assando no espeto. - Acho que vai
ser pouco. – delirava a caprichosa secretária do lar. Sentou-se
um pouquinho, antes de terminar o segundo piso. Olhou uma barra de
cereais que trazia na sua mochila. É agora, lá vai ela. Não vai
resistir. Seus olhos se arregalaram. Seus lábios desapareceram. Vai
comê-los. – Não vou c-o-m-e-r! E realmente não comeu. Pôs-se a
trabalhar.
A tarde chegou. Hora de ir para casa. Mais uns quatro litros de
água. Saiu na janela e começou a colheita. Só que agora imaginou
uvas. Uma colheita de deliciosas uvas. Contava duzentos e três
cachos deliciosamente colhidos. Água na boca. Um barulho na barriga.
E um turbilhão nos olhos. – Vou me sentar. Pensou “isso passa”.
Enfraqueceu-se. Suou um pouco. Suou mais ainda. Quase lavada de suor
resolveu tomar banho.
No banho começa a lembrar de tudo que comera até ali. As
guloseimas, os bolos, os salgadinhos um mais gostoso do que o outro:
coxinha, risólis, pastéis, quibes, e outros... Seus pensamentos em
abrupto ímpeto mudam de direção. E o intento cada vez fica mais
forte: emagrecer, ficar bela, saudável e quem sabe conseguir um amor
– casar.
O banho termina. Ela vai para frente do espelho. Observa-se,
admira-se, gosta-se. Nunca se olhara daquele jeito, nunca se gostara
tanto. E a pergunta da aflita: - será que já emagreci? – Riu.
Comentou: – que precipitada eu sou. Já quero resultado.
As primeiras horas da noite lhe são muito extensas, demoram a
passar. Esta sensação lhe era estranha. A fome. A dor no estômago.
Os delírios por comida. - Quantas horas demoram esses minutos? –
pensou Sinestética. - Eu vou sair para ajudar a passar o tempo mais
ligeiro. Talvez eu me esqueça um pouco dessa fome.
A rua estava muito iluminada, pois era noite de lua cheia. Lembrou-se
do brilho da luz. Resolveu sentar-se no banco da praça e ficar ali a
se alimentar da luz da lua. – Agora vou colher o quê? Já sei vou
colher lírios. – As flores naquela noite estavam muito iluminadas.
A igreja branquinha parecia que possuía luz própria. Os holofotes
iluminavam toda a extensão da praça. Dando impressão de que era
dia. Observava as crianças correndo no parquinho, brincando muito.
Via a felicidade nelas, seus sorrisos ecoavam e a cada um deles era
como se ela se saciasse um pouco mais. Um sorriso da molecada lhe
apagava uma lembrança de um salgadinho. Um beijo de um pai ou uma
mãe em filho - um tipo de docinho lhe saía da vontade de comer. E
isso começava a lhe dar prazer. Os namorados na praça se beijando –
davam-lhe a seu paladar o doce do mel, o frescor da menta. E isso lhe
deu muito prazer – extasiada - por um minuto ficou atônita. Não
entendia bem o que era isso. Mas, gostou. Quando se sentiu realmente
alimentada, decidiu caminhar um pouco. Esqueceu de sua colheita.
Achou que não precisaria mais se alimentar naquele momento. –
Estou cheia! Agora tenho que caminhar pra gastar essas calorias a
mais. – balançou a cabeça em sinal de autossarcasmo.
O calor daquela noite lhe dava sede. Resolveu voltar para casa. No
caminho tudo lhe era - de certa forma – novo. A maneira como olhava
para cada coisa era diferente. Sua vida parecia ter outro sabor. E
algo lhe batia no peito galopante, mais intenso – talvez a vida se
renovando – filosofava.
Chegou em casa depois de caminhar bastante. Tomou muita água,
precisava digerir tudo o que viu-viveu.
Fazia muito tempo que não observava as estrelas. Decidiu sair e
louvá-las, decifrá-las. Esta noite elas estavam muito belas,
pareciam um shake de escuridão e luz. Alguns minutos
observando dava-lhe uma paz sem igual. Sentia que seus horizontes se
estendiam para mais longe. Pensou ser um cometa. Viajava por entre
estrelas e planetas, mas se emocionou realmente quando passou pela
terra e viu um planeta azul com sua grandiosidade e beleza. Pensou em
sua perpetuação – pensou eu sua preservação – pensou-se como
criação – pensou na paz entre os homens. A viagem terminou. E
estava na hora de dormir.
Deitou-se, agradeceu a Deus por mais um dia. E como uma criança que
conheceu algo de novo no mundo dormiu como um anjo.
Segundo dia da dieta
O sol brilha. Com uma energia fora do comum, sente-se mais viva do
que no dia anterior. A fome já não lhe incomoda. Dirige-se à pia e
toma seus dois litros de água. Agora sente que a água tem mais
gosto. Delicia-se a cada gole de água tomado. Veste sua roupa. As
cores escolhidas por ela deveria naquele dia ser verde e branca. Com
esta mistura de cores determinaria que seu dia fosse de paz e
esperança. – Paz e esperança. - Riu. Não sabia bem o porquê.
Mas deveria ser assim...
Saiu de casa e, antes de iniciar o trabalho resolveu passar na
igreja. Teve uma imensa vontade de agradecer a Deus pela manhã, pelo
canto dos pássaros, pela noite bem dormida, pela natureza, e por
tantas coisas que se fosse agradecer por cada uma perderia a hora do
trabalho. Fazia muito tempo que não rezava. Fazia matutinamente o
caminho casa-trabalho e trabalho-casa, poucas vezes passava na igreja
rezar, a pressa lhe determinava o trajeto – como se tivesse o
compromisso de chegar em casa em determinado horário.
Começou a notar as pessoas. Suas expressões avivavam nela
sentimento de curiosidade - o que pensava cada uma, suas histórias,
seus sofrimentos, suas vitórias...
Em sua frente ia uma moça de vestido azul escuro. Resolveu, como
quem não manda em seus atos, conversar com ela. Mas como? –
pensou. Simplesmente decidiu. Cumprimentá-la com um alegre bom dia.
E assim fez. A moça alegremente retribuiu.
- Que belo dia hein? – falou Sinestética.
- Parece que hoje vai ser de sol. – retribuiu a moça de azul num
tom de intimidade.
- Está indo pra que lado? –
- Estou indo para o meu trabalho que fica em frente do cinema.
Trabalho em uma livraria. E hoje tem o lançamento de um livro.
Preciso arrumar a exposição. O Autor vai estar lá. Tem coquetel e
tudo. Se você quiser ir lá será à noite. O escritor dará uma
breve palestra de apresentação de seu livro.
- Quem é ele? Qual o nome do livro?
- Trata-se de um escritor novo, ele possui uns oito livros lançados,
o nome dele é Maximilliano Di Bruno - é um pseudônimo. O livro é
sobre o poder da mente e neurolinguística.
Sinestética riu muito. Pediu desculpas mas falou que não sabia o
que era esse negócio de “neuro... neuro...”
- Neurolinguística. – Traduziu a moça. – Eu também não sei
muito sobre isso, mas ouvi falar que é algo que ajuda as pessoas a
serem mais felizes se entenderem mais. Dizem até que as pessoas
podem mudar suas vidas. O livro pelo que ouvi falar tem a ênfase em
tornar as pessoas mais confiantes. Dizem que ele ajuda a superar
algum de nossos traumas do passado e vivermos melhor.
- Parece muito interessante. Vou fazer o possível para ir.
- Tenho aqui um convite. Você aceita?
- Sim é claro.
As duas se despediram e Sinestética seguiu seu caminho.
A casa em que trabalhava parecia-lhe maior do que os outros dias.
Parou em frente e ficou a admirar a sua forma. Era um sobrado em
estilo alemão. Havia na frente um bonito jardim. As janelas eram
grandes. As cores da pintura eram creme e marrom escuro. Havia no
jardim uma estátua de São Francisco de Assis. – História de
doação e amor. – Pensou ela. – É tem que ter coragem e muito
amor pra fazer o que este homem fez. Desprender-se de todos os bens e
viver uma vida de abstinência e doação.
Abriu o portão eletrônico e entrou. Na entrada da casa sentiu uma
forte dor na barriga. A fome lhe voltou. A tontura também. Entrou na
casa e foi direto para a geladeira. Tomou um gole de água. Melhorou
um pouco. Tomou mais água e sentiu-se melhor. Saiu no jardim e
abaixou-se tocando em petúnias, sentiu suas folhas, suas flores, e
isto a fez melhorar. Voltou para casa. Começou seu trabalho que foi
concluído antes do almoço. A hora do almoço - que ela comeria -
foi dedicada ao jardim. Regou-o, tirou as daninhas, e passou um
inseticida não tóxico para cuidar das pragas. Retornou à estátua
de São Francisco tocou-lhe a mão. Admirou os pássaros que faziam
seu cortejo e pensou na integração do homem com o animal. Que luz
os atraía? Que luz tinha este homem? Sentou-se. Ficou vendo as
joaninhas, as abelhas, os beija-flores, as folhagens.
O tempo passou e já alimentada pela natureza sentia-se satisfeita.
Com mais força retorna ao trabalho. O dia de trabalho termina. Liga
o alarme e segue para sua casa.
A palestra
Chega na sua casa. Checa sua caixa de correios - somente cheia de
contas a pagar: água, luz, telefone e crediários. Imagina-se
recebendo cartas de amigos, parentes, até de admiradores – quem me
dera, secretos; também de valores a serem creditados em minha conta.
Gargalhou de sua medíocre condição. – Ah a esperança, florzinha
que rego diariamente e que teima em nascer...
Tomou um banho rápido. Tinha que chegar a tempo na palestra.
Sentiu-se um pouco fraca. Lembrou-se da janta. A luz já tinha se ido
e agora? Somente lhe restava a água. No caminho de casa pegou água
mineral de dois litros. Tomou de um gole só mais ou menos um litro e
meio. Sentiu o doce da água, também sua salobridade - sentiu um
pouquinho de seu caminho, imaginou-a viajando por rios e mares –
mas isso foi só em um repente e retomou a sua missão arrumar-se
para ir ao evento. Pegou em seu guarda-roupa sua mais bela
vestimenta, um conjunto muito bonito de jeans e uma batinha
azul-escura com uma plataforma que nunca fora usada, aliás como todo
o resto.
- O que será que vai acontecer lá? Nunca ouvi falar nisso. Vou
fazer feio... Aliás vou só conhecer melhor sobre isso – na
verdade nem estou interessada nesse negócio de neuro... qualquer
coisa – vou conhecer pessoas diferentes. Quem sabe...
Sinestética não tinha o interesse por palestras. Sempre evitava
multidões. Seu interesse no máximo era ir fazer visitas em
pizzarias, lanchonetes, em petiscarias e na casa de suas amigas
Monavir e Tiseta. Sentia-se estranha. Sentia algumas vontades novas.
Amava ultimamente as leituras fúteis, mas por alguns instantes
pensava nos clássicos, em alguns problemas do homem. O ócio na
maior parte do seu tempo era seu amigo e a tevê sua rede para
embalá-la ao sono dos finais de semana e às noites. Agora, sua vida
dava uma guinada, se via toda arrumada para um lançamento de um
livro nem sabia de quem, nem sabia para quem, nem sabia por quê. E,
quem diria? Toda arrumada, mais bela do que nunca.
Com o convite em mãos chegou em um hotel muito elegante no centro da
cidade. No hall a nova amiga estava dando boas vindas aos
presentes. Ela foi ficando por ali mesmo. – Já chegou muita gente?
– Você é a primeira. Riu discretamente a amiga. – Nem o
escritor chegou. Prometeu que estaria aqui na porta. A propósito me
chamo Durvalina, pode me chamar de Dorva. Minutos depois começam a
chegar os convidados. Parece que ficaram na esquina amontoados
combinando em chegarem juntos. Também chegou o escritor.
Cumprimentou-as com um largo sorriso. – Essas são minhas fiéis
escudeiras? Brincou Maximilliano. Dorva cumprimentou, como se
estivesse em êxtase, um mega star. – Nos falamos a maior
parte do tempo só por telefone, precisamos nos ver mais. Joseph está
lá em cima. Ele dará as boas-vindas às pessoas na sala de
palestras. Já está tudo arrumado. O coquetel ficará a cargo do
hotel. Tudo em ordem. – Agradeceu exaustivamente Maxi. – Era como
queria ser chamado.
O olhar de Maxi e Sinestética se cruzaram de forma meiga e
verdadeira.
- Essa sua amiga é?
- Sinestética, muito prazer. – A esta altura Siné – era como
queria ser chamada ali pelo menos – estava muito à vontade
ajudando Dorva que entre um boa noite aos convidados e uma palavra
com Maxi organizavam a recepção e davam um tom intimista ao
lançamento – o que era elogiado pela imprensa ali presente bem
como por alguns críticos de plantão que taxavam o comportamento do
autor de acordo com a linha de pensamento adotado em seus livros: - a
valorização do ser pelo ser. Sem distinção - como se fosse um
serviçal que de fato o era - resolveu não vender ali nem um de seus
livros – o que era feito por Joseph lá em cima.
- Não se preocupem autografo depois os livros. – Tranquilizou o
simpático escritor.
A recepção foi tranquila. As pessoas estavam à vontade. A amizade
de Dorva e Siné começou a se desenhar.
O Triângulo
Siné percebeu que Dorva olhava cobiçosamente Maxi. Ele com olhar
fugidio desviava a admiradora, voltando-se para Siné. Tudo se
apagava ao seu redor como se aquilo não estivesse acontecendo a ela
como se as pessoas não estivessem ali – só enxergava aquele que
em um instante roubou seus sentimentos – amor à primeira vista -
pensou.
Dorva percebeu que havia um clima romântico entre os dois. Um leve
toque na mão quase que imperceptível entre os dois selou tal
desconfiança.
- Ah que bela amiga esta. – Ruminava Dorva.
Todavia, resolveu manter-se discreta. Morria ali – em seus
pensamentos medíocres - a possibilidade de uma amizade verdadeira.
Mas quem realmente saberia o destino desta amizade?
- Dorva passou a observar Siné. Seus gestos suaves, sua profundidade
de pensamento – embora não fosse de falar muito – era preciso –
falava com veemência e sabedoria. A dor veio-lhe em segundos ao seu
peito. - A ladra de coração – pensou.
- Quem é esta mulher misteriosa? - Respirava Maxi. O acontecimento
já lhe rendera a oportunidade de conhecer aquela bela moça que
exalava um perfume de rosas. Seus cabelos escuros davam-lhe um charme
sem igual contrastando com sua pele clara com algumas sardinhas
próximas ao seu aquilino nariz.
- Você... sentimento que nasceu em meu coração como se estes
minutos que passamos aqui fossem triplicados com tão agradável
companhia. – Maxi, falou quase que automaticamente corando frente a
Siné, frase ouvida por Dorva que teve em frangalhos seu palpitante
coração.
A recepção estava feita. Era subirem à sala. Siné falou que
subiria. E o fez, entrando na sala cheia, deixando para trás Dorva e
Maxi.
Dorva aproveitou o ensejo e atacou Maxi, roubando-lhe um beijo no
elevador. Maxi atônito vermelhou, nada falou. E ambos chegaram ao
salão sem mais nem uma palavra proferida.
Joseph compôs a mesa chamando alguns repórteres e um vereador da
cidade que se fazia presente. Maxi expôs durante quarenta minutos o
mote do encontro, falando extasiado sobre a experiência do livro que
tratava de forma profunda – mas segundo ele – com linguagem
simples vulgarizando teorias tão complexas como a filosofia
existencialista e a teoria da relatividade de Einstein.
Os focos principais eram: a ajuda
ao homem para se perceber como homem e; aproveitar seu tempo
dando-lhe uma elasticidade promovida pelo prazer de uma vida vivida
em sua plenitude - do homem que aprecia um simples lírio ao homem
que descobre Deus na grandiosidade complexa das relações humanas.
A eloquência de Maxi fazia Siné voar por suas palavras, tudo
parecia tão claro, tudo tão profundo, viajava numa nebulosa de
saber-amor-prazer.
Dorva era ensurdecida pelo ciúme. Os recônditos da sua mente eram
abrigados por estratégias de conquistas. – Como não pude perceber
esta traidora no primeiro encontro. Seus olhos ligeiros, seu sorriso
malicioso. Quanto fui tola. Chamá-la ao meu lado. O lobo vem à casa
do cordeiro. Ruía-se por dentro Dorva.
A palestra acabou, os convidados se retiraram, Joseph levou as
autoridades para um jantar. Saiu dizendo que aguardaria Maxi assim
que ele terminasse ali.
Ficaram Dorva, Maxi e Siné no final. A conversa fluiu em torno do
sucesso que foi o lançamento do livro. Maxi elogiou desmedidamente a
competência de Dorva. – Esta foi a melhor apresentação que já
participei. Muita simplicidade, objetividade, e de um
profissionalismo sem igual. Dorva corou e orgulhou-se. Agradeceu
afirmando que o evento foi o sucesso que foi pela qualidade do
trabalho do escritor que não merecia que fosse diferente.
- Irei fechar a conta. Vocês vem comigo? – Falou Dorva.
- Não ficaremos aqui. Preciso conversar com Siné. Vou chamá-la
para trabalhar em meu consultório. Você achou uma auxiliar à
altura da qualidade do evento, preciso de alguém assim a meu lado.
Declarou Maxi – provocando mais ainda a ira de Dorva.
Os dois a sós. Siné ainda extasiada pela eloquencia e charme de
Maxi. Parabeniza-o. – Você topa sair comigo logo após o jantar?
Convida meio que descrente Maxi.
Rindo discretamente, com a humildade de uma jovem inexperiente –
aceita.
- Temos muito que conversar. E com um discreto beijo incendeia as
bochechas de Siné. O que é flagrado pela admiradora de Maxi que
fica tristemente parada no final da escada que dá acesso à cena.
Despendem-se deixando primeiro Siné em sua casa. Segue levando Dorva
ao jantar. – Nos vemos... diz Maxi. – Té Miga. Brigadão... A
gente se vê. Despede-se Dorva.
No carro ao sair para o jantar Maxi deixa claro a Dorva que o
relacionamento entre os dois seria apenas profissional. Desculpa-se
afirmando: - Dorva não é por nada, você é uma mulher atraente,
muito inteligente, madura nos seus atos e palavras, mas... podemos
ser amigos e só... acho que encontrei a pessoa que há muito
procuro. Siné sua amiga... – Ela não é minha amiga – braveja
Dorva. – Ela foi alguém que conheci no momento errado. Tudo bem
podemos ser amigos? Mas assim que você se decepcionar com aquela
imatura estou esperando por você. – Ambos aceitam a condição, e
sobem sem nada se falar, para o jantar.
O Amor bateu no coração
Siné vai para a geladeira pega de sua água e a consome como se
estivesse no deserto. Meio que aturdida não compreendia o que estava
acontecendo em sua vida. – Tudo tão diferente em tão pouco
tempo... – balbuciava a si mesma. Nunca um homem havia a olhado
como Maxi. – Aqueles olhos, aquela expressão sábia, sua boca, sua
voz, seus cabelos, sua sensibilidade, sua inteligência. – Quantas
palavras para descrever o que o coração não entendia, somente
sentia. Mais do que nunca a necessidade de conhecer o mundo para
impressioná-lo fazia-se presente. – Quero saber mais. Quero viver
mais. Quero viajar mais. Quero me embelezar. Quero ser feliz. Tudo
isso com meu amor. Jogou-se de cabeça – com palavras – no amor
de um desconhecido, que o sabia assim, todavia por alguma razão lhe
transmitia confiança.
A lua ainda iluminada no céu com brilho se assemelhava a um grande
copo de leite alvo, luminoso, inspirador.
Ela pôs uma roupa leve e saiu na escada de sua casa que dava para o
quintal. De lá ficou a se alimentar da luz da lua, dos sonhos ao
lado do seu amado, das verdadeiras amizades como Dorva que lhe
oferecera até ali o que nem uma amiga lhe tinha oferecido – a
oportunidade de ser feliz, de sonhar, de conhecer pessoas diferentes
– embora não soubesse o que se passava nos pensamentos de sua
rival amorosa. Isso Siné não sabia, pois Dorva dissimulou-se muito
bem. Sempre prestativa, sempre sorridente, sempre pronta a responder
atenciosamente o que Siné perguntava - aparentemente uma pessoa
sensível e autêntica. Talvez tenha sido desfigurada pelos
flamejantes dragões do ciúme - quem sabe?
Os planos foram inevitáveis voltar a estudar. Decidiu voltar a
estudar, preparar-se para o vestibular, pois havia três anos que
tinha se formado no ensino médio. – Quero fazer psicologia.
Decidi. – Quero fazer poemas. Aliás, esta noite vou fazer um. -
Adorava poemas. Eles a faziam sentir-se melhor. No entanto poucas
vezes pegou da caneta para compor um. Eis a oportunidade. E num
ímpeto queria ler sonetos. Queria fazer para o seu amor – por ora
platônico – sonetos. Eles ajudariam também explicar sua paixão.
Talvez idealizá-lo como um cavaleiro que a acompanharia, que estaria
a protegê-la como a uma donzela em perigo.
O resultado de algumas horas tentando foi festejado logo que saiu a
primeira estrofe em um velho caderno:
Meu amor, que de longe imaginado
Pensava existir somente em estrela
Distante, outrora só em meu fado
Acendeu em mim, da esperança, a centelha.
As tentativas se sucederam e adormeceu sentada no sofá não
conseguindo continuar a segunda estrofe.
Às duas horas da manhã. Bateu-lhe à porta Maxi. Meio que atordoada
abriu-a. Surpreendeu-a com um caliente beijo. E a noite lhe
ofereceu a inspiração que precisava para terminar seu soneto. O que
foi descrito logo de manhã após Maxi ter se despedido com beijo -
enquanto ela dormia - deixando o número de seu telefone e as juras
de amor eterno presas pelos ímãs em sua geladeira num bilhete: “Que
desta noite ecoe o mais puro amor dos nossos corações. Tomei a
liberdade de ver seus versos. Amei-os. Bjs.”
Emaranhei desejo não gozado
Em gotas de orvalho na lapela
Nunca havia deste mel experimentado
Sinto-me agora tinta em sua tela.
Controlava, o pecado, meus conceitos
E você, meu amor, os olhou se quer
Com carinho ignorou meus defeitos
E com amor selou uma mulher
Que jamais sonhara tais deleitos
Que docemente em minha vida se fez mister.
Dia de folga.
Ainda atônita perguntava-se era digna de tanta paixão. Nunca
imaginou que em tão pouco tempo começaria em sua vida um momento
deveras sublime.
A fome lhe veio como algo inesperado, como o verme que lhe rói as
vísceras. Com ela a sensação do esgotamento tomou seus membros.
Resolveu caminhar para esquecê-la. Foi até a uma fonte no centro da
praça próxima à sua casa. Lavou-se: a cada vez que tocava sua face
lhe vinha à mente suores, ofegos, calafrios, felicidade... Embora, a
felicidade fosse um mar em que se encontrava submersa, estremecia-se
suas entranhas e o medo do amor frustrado toldava-lhe por alguns
instantes a luz que cintilava sorrisos na alma que cobriam as mais
densas lembranças de uma vida sofrida. Aqui-agora-felicidade,
pensou.
Vestia amarelo claro. Sentia na boca o gosto do enxaguante bucal que
lhe enjoava. Sentou-se em um banco bem de frente à igreja. Os raios
solares, lambiam-lhe o rosto, refletidos nas águas da pequena lagoa
em que nadavam alguns patinhos. A água naquele dia tinha que ser
reflexivamente apreciada goles calmos no fundo ensalobros,
salgado-doce. O coração sentia-o bater aceleradamente. Mais água,
os patos pareciam não se mover, aliás tudo parecia não se mover –
pelo menos é o que parecia.
Apreciou um velho ipê amarelo. Seus galhos cobertos por um ponche
verde claro davam-lhe uma imponência real. Lembrou-se do rei
Salomão, suas riquezas, sua sabedoria, sua mortalidade, do sermão
do padre na quarta-feira de cinzas, da simplicidade dos lírios da
praça... O sofrer pelas coisas terrenas. A correria do dia a dia em
busca de se eternizar por um momento, em um mísero momento. O fato
de não ter que animalescamente perder a eternidade para garantir um
tórrido pedaço de pão. Riu-se, xingou-se “boba, isso não é tua
realidade! Esquece. Ô ô volte à tua aguinha!”
Sua voz ordenou para que voltasse de seu momento de reflexão. O
homem às vezes se animaliza na busca de seus ideais, esquece de sua
origem subliminar e prende-se ao predatório materialismo. Espiralava
seus sentidos tal reflexão. “Já sei a fome. Quero mais água”.
Saciou-se por mais alguns segundos.
Não queria se lembrar da incrível noite – o medo do abandono a
atormentava – a eternização daquele momento era seu locus
amoenus. “Aprazíveis caminhos me levam ao meu Amor. Seu
celular... Vou ligar... Nem que eu queira meus dedos não me
obedecem, nem minha razão... Não posso ser aquela que rasteja...
Mas é o meu amor... Não posso...”
- Minhas amigas. – Lembrou-se de suas amigas. Mas de todas Dorva
era a que lhe puxava o fio da memória.
Admirava-a, sua paciência, sua sabedoria, seu conhecimento. –
Minha mentora. – Balbuciou.
As amigas
Já não se sentia tão faminta. Dirigiu-se à livraria em que
trabalhava Dorva. Ao chegar à vitrine da loja um choque correu-lhe à
vértebra. O livro de Maxi exposto, um grande folder à porta com a
fotografia de Maxi segurando o fruto de seu trabalho e o slogan
“Viver um fardo? Ou um presente divino? Você faz a escolha.”
Para ela a escolha do amor gerava-lhe uma dúvida, mesclada de
satisfação e esperança.
Ficou alguns segundos em um plano diferente daquele em que estava. As
coisas ao seu lado ofuscaram-se. Maxi saía do folder lhe
abraçava, satisfazia-lhe, saciava-lhe, entendia-lhe. Maxi talvez não
soubesse a que intensidade incendiara esta rica criatura. O amor de
Siné era algo que – segundo muitos - não existe mais em nossos
dias. Em pouco tempo - como uma adolescente – entregara-se aos
encantos de uma paixão.
A mulher degladiava-se com a inocente criança que habitava os
recônditos de sua essência. A primeira alertava-a à possível
decepção, à superficialidade dos relacionamentos, à maturidade da
mulher que não se aprisiona, mas deixa a paixão livre como um
cavalo selvagem. Já a segunda... possessiva, louca de paixão... a
entrega certa... a espera do príncipe encantado... algo edipiano; o
casamento; a casa limpinha... a dona de casa, a comidinha, os
filhinhos, os cachorros, as juras de amor eterno...
Alguém a desperta com leve toque ao ombro. Com um sobressalto
interrompe-se a divagação. Olha para trás e Dorva lhe recepciona
com um largo sorriso. Siné a abraça sinceramente. A amiga –
pensou: porto seguro, conselho certo.
- Como vai você? Desculpe-me o jeito. Onde você estava? – sorriu
maliciosamente Dorva.
- Longe, muito longe. Aqui no meu peito tem um navio que navega sem
rumo. Ora no mar, ora no cais. – Filosofa Siné.
- Ah malandrinha, apaixonada não é?
- Digamos que... talvez...
- Seus olhos não enganam. Maxi é um Don Juan com as mulheres, um
legítimo gentleman. Esse Maxi. – apontou com o dedo – Não
se entregue fácil. É das mais difíceis que ele mais gosta. -
Alertou tardiamente Dorva.
Siné só sorriu.
- Maxi esteve aqui hoje cedinho. Ele passou aqui assinar o contrato
com a editora. Joseph estava muito contente com a expectativa
positiva do livro frente às vendas. Já é um sucesso. – Comemorou
Dorva.
Siné sorriu.
– Ele é muito inteligente. Inteligência e carisma são um prato
cheio para o sucesso. Reafirmou Dorva.
- E você como está Dorva?
- Estou ótima. Vou ganhar uma promoção. Vou ser responsável pela
turnê de Maxi. Vou viajar com ele no lançamento do livro na Europa
por uns três meses. Depois me estabeleço na França por mais seis
meses na filial de lá me aperfeiçoando e volto para gerir os
negócios aqui no Brasil na região sul. – Extasiava-se Dorva
comemorando oceanicamente.
Os olhos de Siné arderam, a palpitação, a falta de ar. Engoliu
tudo isso a seco e falou:
- Que bom! Quando vocês viajam?
- Daqui uns quinze dias. – Pausa.
- A propósito você não quer trabalhar aqui? Uma de nossas
atendentes vai ficar no meu lugar e vai sobrar uma vaga o que você
acha? Joseph amou seu trabalho, você ontem se saiu muito bem. Vou
acertar com você, você foi ótima. – Dorva acatou muito bem a
ordem. A discrição era pedido de Maxi para que Siné não
desconfiasse que o pedido viera dele. Ele acreditava nela, mas, quem
daria trabalho nesta área para uma pessoa que não tem muito
conhecimento em literaturas. Deveria ela conhecer muito. Mas isso não
era problema para Siné gostava de leitura, embora não tivesse ainda
frequentado uma faculdade. Era autodidata, aprendia com a vida,
aprendia com a natureza. – Um espírito inquieto, uma mente limpa,
um coração mais limpo ainda, uma malícia pueril que decifrava o
espírito das coisas. Talvez foi isso que só Maxi percebeu. O
conteúdo e não o frasco daquela incomensurável fragrância.
- Amei o que fiz ontem. Não se preocupe aprendo rápido, amo livros.
Aceito o emprego. Quando começo? – Abraçou Dorva agradeceu-a
exaustivamente.
A situação era nova. Poucas vezes decidiu tão prontamente por
alguma coisa. Sabia que o desafio era grande. Mas que engrandecida
sentia-se. Era uma sensação de felicidade e um dedinho de
preocupação com seus patrões. Sempre confiaram nela... e assim
sair de repente, deixá-los na mão. Eles entenderiam, - pensou, -
sempre torceram por mim e sabem que o meu momento chegou. Tenho que
voar, tenho que conhecer coisas diferentes. Sempre estivera anônima
na multidão. Os rostos das pessoas lhe pareciam não focarem em sua
direção. Sempre uma anônima. Mais uma carinha assustada que
caminha na rua. Seus sentimentos, sua vida, sua história, não
interessava a ninguém... às vezes nem a ela que procurava recalcar
tudo que a fazia infeliz. Tudo que a diminuía. Sua tristeza embora
embalasse seus dias, empurrava-a à uma vida diferente de sublimação
de apreciação das coisas pequenas: do canto dos pássaros, das
flores amarelinhas que faziam sua vida mais feliz, dos cachorros na
rua com seus olhares tristes, solitários, famintos, às vezes
doentinhos... Chorava por não poder cuidá-los como deveria, o tempo
lhe era pouco. Cuidava poucos dias, encaminhava-os a alguém que
pudesse criá-los, o último que adotou morreu... Decidiu por um
tempo não tê-los. A posse: quem tem quem? Síntese quase perfeita:
homem x cão: amizade e não solidão. Pensou “Seria muito infeliz
se não tivesse sido curada da solidão pela presença em minha vida
no momento em que mais precisava de um amigo cão”.
Dorva selou neste momento, sem perceber, um contrato de amizade. Uma
amiga verdadeira. Daquelas que briga por aqueles que a cercam.
Por outro lado, na ótica de Dorva, teria Siné por perto. Vigiaria
sua concorrente. Pelo fato de como mencionou que seria companhia a
Maxi em sua turnê já causou – bem no íntimo de Siné – ciúme.
Dorva comemorava o fato de quem ficaria com Maxi seria ela. Era uma
questão de tempo e em poucos dias seriam um casal.
Que mesquinha sou eu! Por que estes pensamentos me rondam? Não posso
pensar isso. Esta pobre alma amou aquele homem... Ela confia em
mim... Pobre menina perdida...
Por um instante Dorva compadeceu-se de Siné.
A viagem de Maxi trazia ao coração de Siné a realidade dura, dura
realidade, e, isso a puxava ao seu mundo.
“Sei que Maxi não gosta de mim!” O conflito entre paixão
possessiva e consciência desconcertou Siné. E por alguns segundos
entregou-se à figura de amiga. – Talvez eu seja a ele uma amiga,
mais uma em sua vida. Seja o que for, foi ótimo.
Um calor imenso corou Siné e Dorva notou. Mas não comentou, apenas
percebeu que fazia algum tempinho que estava falando sobre o
trabalho. O que deveria fazer. Ela balança a cabeça e pede que ela
continue.
- Vamos tomar um café assim a coisa flui melhor. E Dorva sai com
Siné como duas amigas confidentes, traçando planos de quando ela
começaria.
- Você folga hoje, amanhã você começa. Acerta a tua vida. Tudo
bem? Sorriu Dorva muito prestativa.
Siné festejou mais uma vez: carteira assinada, uma chance diferente,
um universo diferente...
Por outro lado a família que há dois anos a adotara seria deixada.
Sentiu-se traidora. Mas a mudança teria que acontecer e o pedido de
conta: o choro, a despedida, o início de uma nova vida.
A tarde do Passeio
Siné resolveu retirar-se do mundo pois precisava refletir sobre sua
mudança repentina de vida. Tudo a aturdia: o amor, a dieta, o novo
trabalho, novas amizades, passou a gostar-se.
Saiu diretamente do café e embarcou no ônibus. Ao adentrá-lo as
pessoas a fitavam alegremente. Algumas a olhavam com inveja.
Interrogava-se se era para ela mesma que olhavam. Não se sentia
neste momento como antes – invisível ao olhar das pessoas – era
como se uma luz despertasse aqueles que a cercavam. Sentou-se na
poltrona. A brisa daquela tarde entrava alegre pela janela
lavando-lhe ainda mais suas desilusões passadas. Sentia-se linda,
sentia-se desejada, sentia-se como se a vida lhe valesse a dura pena
que pagara até aquele momento... “a dor me edificou, hoje mereço
o que vivo pela imensa dor que senti. Valeu ser uma boa moça e ter
um amor verdadeiro, pelo menos o meu é verdadeiro, e é isso que
realmente conta.” No seu interior Siné sabia que a sua dor não
era tão imensa como daquelas pessoas que sofrem de doenças, ou
daquelas que sofrem privadas da liberdade, ou males maiores. Todavia,
havia algo nela que poderia ter-lhe tirado a vida. Sentia que às
vezes não tinha liberdade, pois não a vivia na sua mais profunda
significação. Vivia presa dentro de si mesma. Havia de se libertar.
E essa nova vida estava lhe oferecendo a oportunidade de sair de seu
interior e no mais íntimo de seus desejos viajar muito longe.
Absorver a vida que raiava nas manhãs e que ela por muito tempo a
ignorou optando por ficar na escuridão que toldava seu desejo de
presenciar coisas tão simples como o raiar de uma manhã ensolarada.
Junto com a brisa veio-lhe gritinhos. Era da filhinha de uma senhora
que estava com uma pequena menina. A criança chamava-lhe a atenção.
Como se quisesse conversar com ela. Sorriu-lhe altivamente e se
escondia atrás da mãe. Fez várias vezes e Siné retribuía com um
sorriso tão largo quanto o da menina.
- Linda menina... uma princesinha. – Falou Siné elogiando meio que
timidamente.
- Ela realmente é muito linda, é minha meninha. Não é filha? -
Encolheu-se muito mais a criança quase que desaparecendo atrás da
mãe.
- Você tem filhos? Indagou a mãe da menina segurando a menina que
queria sair do colo.
Siné respondeu: - Não. (pausa) - Mas tenho veneração por elas.
Elas me relembram um tempo em que somente as crianças me eram
verdadeiras.
A mãe sorriu meio reticente. – Elas nos entendem, embora sua
consciência de mundo seja limitada e ingênua, seus olhinhos veem
coisas que nós adultos não enxergamos. Elas nos pregam, às vezes,
uma imensa lição.
Siné encantada com a meninha viajou a sua infância. Infância dura
de uma família de poucos recursos. O pai era biscateiro e a mãe
trabalhava como diarista. Seu pai, semianalfabeto, assim como a mãe.
Mas a honestidade e o valor à vida – pela vontade de sobreviver -
era o que segundo eles deixariam a ela. O pai sempre lhe falava: “te
darei estudo filha e ele não é tudo, mas é o que não podem te
tirar, meu maior presente a você. Enquanto eu puder te sustentarei
para você estudar”. Esta possibilidade não durou muito tempo,
haja vista ter tido a necessidade de trabalhar bem nova para ajudar
sua família no sustento da casa. Ajudava sua mãe de manhã e à
tarde ia para a escola. Sua sofrida vida nem era percebida. As dores
lhe açoitavam, no entanto, com sua valentia as suportava, e no fundo
acabava até se divertindo com as poucas coisas que lhe davam prazer.
“Siné é muito madura para idade dela” falavam as amigas da mãe.
Essa menina um dia será alguém na vida. A inteligência de Siné
era elogiada pelas patroas da mãe. “Uma menina com olhar vivo, com
atitudes vivas, e uma luz muito grande.” Foi assim que foi definida
Siné por uma historiadora dona de uma das casas em que a mãe dela
faxinava. “Eu lhe darei alguns livros e você os leia, assim que
puder te darei mais. Conseguirei para você uma carteirinha da
biblioteca.” Esse foi um dos maiores presentes que Siné ganhou,
pois lhe traria uma lucidez de espírito que a faria forte em sua
caminhada.
Trabalhando, estudando, vivendo. As dores lhe eram diversões,
fortaleciam-lhe. Sua sofrida vida passava e os sofrimentos não lhe
eram assimilados. Mas, com o passar do tempo veio-lhe a ansiedade. E
sua dieta calórica, oferecida pelos poucos recursos, lhe daria os
contornos os quais odiaria e lhe faria – como vaga desculpa –
infeliz com sua aparência. Mesmo assim, no seu interior, dizia-se
feliz, e seus pais até o final de sua adolescência sempre estiveram
com ela dando-lhe companhia e força para suportar as dificuldades da
vida e a sua desenfreada busca, quase que inutilmente, em entendê-la.
Lembrava-se também que às noites o pais contava histórias e não
raras as vezes seus pais cantavam embalados à luz do lampião.
Definia aqueles momentos como sua riqueza, sua integridade. Seus pais
cuidando - instintivamente - em seu pouco entendimento, da
integridade emocional da filha, queriam que ela não se ferisse.
Protegê-la, pois ela era a eles “sua menininha”.
Aproximava-se o ponto de parada precisava descer. Beija calorosamente
a menina no rosto, bem como sua mãe e desce. “Você valeu o dia!”
disse docemente Siné despedindo-se.
Havia perto de onde ela desceu um santuário. Tirou as sandálias e
andou pela grama até chegar à capela central. Uma pequena capela em
volta muitas árvores ao longe um vale. Precisava olhar longe
libertar sua mente. O céu tocava o verde. Sentou-se embaixo de uma
árvore. O canto dos pássaros se fizeram sua música, relaxava-a. A
lucidez precisava fazer-se amiga dela, pois nesse momento ela
precisava mais do que nunca ser lúcida. Entendia que a felicidade
podia ser momentânea e neste momento ela poderia toldar-lhe seus
sentidos.
Rezou alguns instantes. Entregou a Deus suas decisões. Entregou a
Deus seu amor por Maxi.
Ficou o resto da tarde ali. Depois foi para casa.
As juras de amor
Quando chegou próximo a sua casa viu que o carro de Maxi estava
estacionado em frente. Sentiu uma imensa alegria, e também
insegurança. Não sabia o que falar. Gostaria de poder encantá-lo,
mas a criatividade é um animal selvagem. Às vezes não conseguimos
domá-lo, às vezes nem conseguimos nem se quer vê-lo.
Maxi estava sentado na pequena varanda que havia na saída para o
jardim.
- Olá? Como vai? – perguntou Maxi.
- Muito bem e você?
- Já conseguiu assimilar a nova vida que você viverá daqui para
frente? – Sorriu Maxi.
- A maior mudança aqui é você. – Justificava Siné, com um largo
sorriso.
Ele a beijou suavemente, pegou suas mãos. E interrogou: - você não
vai me convidar para entrar?
Siné sorriu novamente e abriu a porta. Abre toda a casa. Sentam-se
na sala.
A conversa foi longa. Haviam coisas para serem tratadas. Maxi disse
que era como se ele a conhecesse há muito tempo. Não precisava
conversar muito com ela para saber que havia algo de muito bom nela.
- O que você viu em mim? Não tenho nada de interessante. Sou uma
menina sem a metade do seu conhecimento de mundo. Você é viajado.
Não sei nada de você.
Nesse instante Maxi põe levemente a mão nos lábios de Siné e
suavemente pede que ela não fale mais nada. Beija carinhosamente sua
mão. E diz: - amanhã você entenderá. Poderia te dizer tudo o que
senti por você. Mas passei a tarde inteira escrevendo sobre isso.
Seria tautológico. Portanto amanhã leia minha crônica que
publiquei sobre nosso amor. Peço desculpa se expus a gente. Mas
precisava falar para o mundo inteiro. Eternizar um momento que para
mim foi um dos mais felizes da minha vida. A mulher que sempre
sonhei. Mas... Amanhã você lerá e entenderá tudo. Agora vamos
aproveitar este momento.
Resolveram sair. Precisavam aproveitar o tempo. Maxi dispensou seus
compromissos e entregou-se a Siné.
- Vamos jantar depois, vamos ao cinema.
Não sabia da dieta de Siné. Logo saberia. Ficou meio atônito,
todavia resolveu respeitar. Não sem antes aconselhá-la como quem
tem conhecimento de causa, por ter como aconselhadas várias meninas
que sofriam de anorexia.
- Você não sabe o quão triste é o sofrimento dessas meninas, o
quanto sofrem suas famílias e aqueles que as amam. Pense
profundamente no que você está fazendo. Na livraria você
encontrará vários livros a respeito do assunto.
Siné contra-argumenta afirmando que não está passando fome, só
mudou seu alimento. E desde que mudara, sua vida também mudou. E
agora ela se sentia muito feliz.
- Olhe Maxi. (pausa) Desde que mudei meu foco de vida cresci muito.
Talvez não seja o momento de eu parar. Eu supervalorizava algumas
coisas. E não aproveitava outras. Deixei de me alimentar da vida. E
é isso que entendi.
Sentada à mesa com Maxi se alimentava de suas palavras de sua
preocupação, de seu amor quase que paternal. E a noite passou
agradável. Com cada um contando sua história de vida.
Mais Siné falava, Maxi só ouvia como que se sonhasse.
A crônica
Maxi saiu antes de amanhecer. Um bilhete na geladeira: “os sonhos
que mais nos prendem são aqueles a que nos entregamos sem nem uma
reação. Um agradável dia a você. Um início ótimo de trabalho.
Boa sorte. Passo à tarde aqui. Com amor Maxi.”
Siné era toda empolgação. Seus olhos flamejavam. Era um sonho que
não sonhara, mas que o vivia com intensidade. As colegas de trabalho
a receberam com bonomia. Foram simpáticas e dispostas. Embora uma
delas, a mais velha, aparentemente falou com ar de graça “aqui se
muito trabalha, pouco se ganha, mas muito se diverte, boa sorte
colega. Aliás livros novos chegaram, você já tem o que fazer.
Axulina você ensina Siné na catalogação?”.
Era um ambiente bem arejado, uma iluminação ótima, havia uma sala
de leitura com confortáveis almofadas, um ambiente Hi-Fi, e tudo que
uma livraria bem montada precisava ter, inclusive um ambiente
infantil com salinha de leitura e jogos lúdicos. Era algo muito
agradável a Siné. O saber batia em sua porta. Ali com certeza
aprenderia muito.
Axulina chegou com um exemplar do jornal de circulação regional em
mãos. Falou a Siné. Dorva pediu que eu o entregasse a você. Tem
algo muito importante aí que te interessa. Siné continuou
catalogando. Observava as pessoas que entravam. E cada uma delas
apresentava um ar que despertava nela o interesse de saber um pouco
de suas vidas. Aproximava-se para vê-las qual eram suas preferências
de leitura. Estudava-as e sem perceber a cada pessoa que entrava
arriscava mais ou menos a que sessão se dirigiria – algumas vezes
acertava – e isso se fazia uma interessante brincadeira. As colegas
às vezes não muito simpáticas abandonavam os clientes muitas vezes
nem perguntando no que se interessaria. O que desejaria. E assim
passou a manhã. Dorva chegou perto da hora de Siné sair para o
almoço. Abraçou-a e falou:
- Siné hoje estou conversando com algum de nossos clientes e
fornecedores, caso você precise de alguma ajuda só você me ligar
te deixo meu número de celular com você. Ligue não se apure. Se
você precisar de algum livro para você se familiarizar temos todos
em versão digital. Alguns dos editores nos abrem para conhecermos
seu conteúdo com sinopses muito interessantes. A senha te entregarei
também. Não se envergonhe em perguntar. Todas as meninas estão
muito bem aconselhadas em não te deixar na mão. Você é minha
amiga. Eu não vou te deixar na mão (insistiu). – Dorva falava
ligeiro Siné só balançava com a cabeça concordando. – A
propósito tenho que ir ligeiro em casa almoçar, à tarde continuo
com meus serviços externos. Até mais Siné. Amanhã conversamos
mais. Beijão.
Dessa forma sem Siné dizer alguma coisa Dorva falou com uma das
meninas e saiu apressada.
Logo após sai Siné para a hora do almoço.
Curiosa Siné dirigiu-se à igreja. Benzeu-se. Sentou-se e tirou de
sua bolsa o jornal. Foi folhando até chegar na coluna de Maxi. E
começou a ler:
“O amor em sonhos e realidades. Prezados leitores. Sempre venho a
vocês semanalmente falar das relações humanas e suas dificuldades.
Atualmente tenho vivido um conto de fadas. Lembram-se vocês de
alguma vezes ter citado em minhas crônicas uma mulher que sempre
sonhei? Era minha companheira ideal. Não digo que não tenho que
agradecer às muitas mulheres a que conheci e que muitas vezes
traçamos histórias muito felizes. Decepções vivi sim. E mesmo
elas me ajudaram a definir o meu padrão do que realmente quero para
minha vida. Agora volto a falar de minha companheira ideal. Vejam só
os senhores. Sairei de minha formal maneira de escrever baseada na
ciência para de maneira – quase que coloquial – traduzir o que
estou vivendo. Há poucos dias no lançamento de meu último livro
havia feito um pedido aos céus. Que precisaria conhecer alguém
especial. E foi nessa mesma noite que conheci. Eu antes mesmo de
conhecê-la pessoalmente já a imaginava há muito tempo. A descrição
era a mesma: fisicamente, intelectualmente e sentimentalmente. Ela
poucos dias, em forma de sonho já havia se apresentado a mim. Seu
rosto não conseguia enxergar, mas sua voz para mim era clara, era a
mesma da mulher que me ajudou ter sucesso num dos eventos mais
importantes a que participei. Meu maior contrato com uma editora.
Minha maior chance de minha vida. Sobretudo minha noite mais feliz
depois de tantas que se passaram como que se fosse a repetição de
outras opacas noites. Saliento que sua luz era sem igual. Sua aura de
bondade era um coisa fora do normal. Sua aparência física era
completada por uma sabedoria, daquelas imanentes, daquelas que nasce
com a pessoa. Confesso que ela não precisa dizer muitas coisas. Como
já falei, eu já a conhecia. Senti medo disso. Mas o amor é maior.
As viagens que fiz me conduziram para caminhos desconhecidos. A cada
uma delas a novidade me trazia algo um pedaço do desconhecido e
necessário à minha vida. Sinto que de todas as viagens amorosas
essa é a que mais tem a me trazer algo novo. (Desculpo-me aqui aos
meus amores passados a que tenho muito que agradecer). Confesso que
pensei que não confessaria nunca um amor. Principalmente a vocês
leitores. Nunca fui tão pessoal nas minhas escritas destinadas a
vocês. Mas achei que esta seria a chance de me fazer conhecer –
uma pessoa sensível, leitor de poesias, que se emociona com um
filme, que se emociona com a natureza, que se compraz com aqueles que
padecem, e que também sofre, mas não deixa de acreditar. Em meus
artigos, vocês sempre encontrarão um pouquinho de mim. Hoje vocês
tiveram a chance de ver muito de mim. E isso graças a uma mulher que
colocará com certeza nos meus próximos livros – se ela mesma
quiser – um charme maior às minhas manifestações por quanto
tempo ela assim desejar. Termino hoje afirmando que vale a pena se
entregar ao amor, ele é o remédio a todos os males trazidos pelo
tédio. Uma ótima e iluminada semana.”
A quinzena de amor
A crônica de Maxi aumentou ainda mais o amor de Siné, bem como a
admiração do público-alvo de seus livros que o viam como um homem
da ciência que escrevia friamente, mas não de forma vazia, sobre o
homem e seus recônditos – suas fraquezas e seus caminhos
alternativos para sair da depressão e enfrentar de frente este mundo
capitalista predador. Este conflito, admiradores e Siné não
perturbava Maxi que tinha bem claro seu caminho, seus ideais – ter
filhos, viver um grande amor, fazer profissionalmente o que sentia
prazer: escrever.
Os quinze dias passavam rapidamente. Siné não abandonou sua dieta
que já não a incomodava – o sol, as alegrias, as idas a lugares
floridos ou em que a natureza cantava silenciosamente uma canção, a
igreja, aos templos, suas amizades, seu novo trabalho que a cada dia
mais a impressionava pela riqueza que possuía as infinitas páginas
das obras que se ofereciam carinhosamente a ela – que servia como
mediadora entre objeto desejado e ávido consumidor. Enfim
alimentava-se, às vezes, enfastiando-se de vida que se fazia
abundante ao seu lado.
Esses dias foram transcritos em uma poesia em seu diário:
“Fez-se enfim primavera
Fez-se em mim felicidade
E a quinzena... Já era.”
A viagem de Maxi
Chegou o dia da viagem de Maxi. Abre-se aqui um parêntese para
comentários a respeito do tempo. Os dias antes da revolução na
vida de Siné eram muito extensos – a sua dor – muitas vezes sem
motivo, pareciam infindáveis. Suas mágoas regurgitavam em suas
vísceras e o tempo regurgitava dessa forma. Seu sofrimento diário
sempre era novo. No seu interior a dor era intensa – fibromiálgica.
Embora buscasse externar-se como pessoa feliz, sorridente, muito
pronta a tudo, quase uma mãe de suas amigas. Era estoicista, sofria
por suas amigas, por ela mesma, pelo mundo, pelas estrelas... Agora
as novidades de uma vida radiante aceleravam sua vida, páginas novas
no livro de sua existência, eram páginas prazerosas de serem
folheadas e quando revistas reavivavam mais ainda seu dia a dia.
Tornou-se solidária, agora, de sorrisos, de bons conselhos, porém
sem deixar-se contaminar pela dor do outro. Sentia prazer e, ser
fonte de luz aos outros. Uma nova vida.
Com essa radiância acordou ao lado de seu amado. As malas estavam
prontas. Era o dia. Maxi afirmou que noivaria com ela no retorno e,
ela ficava na incumbência da organização do noivado. Sentou-se aos
pés de Maxi a olhá-lo era como um sonho que ainda não acreditava:
o amor em um tempo em que sentimentos puros são raros em meio a
tanta atitude mesquinha com o semelhante em que as pessoas parecem
ter saído de um iceberg.
O avião partiria às 15 horas, até lá buscaria fazer o que pudesse
para disfarçar a Maxi a imensa saudade que iria sentir e a que já
estava sentindo mesmo antes da partida. Precisava ser forte. E de
fato o dia foi muito agradável, conseguindo aproveitá-lo mesmo
diante de tal situação.
O fato que mais marcou o dia de Siné, foi Maxi ter feito um noivado
simbólico no meio da praça. O que ele fez a Siné, foi tirar suas
sandálias, ele tirou os seus sapatos. Embaixo de um pé de plátamo,
apanhou um galho de uma flor branca fazendo-o à forma de uma
grinalda, no celular o toque da marcha nupcial. Mas, o cortejo da
natureza e dos pássaros foi o que mais impressionou o momento –
embora não planejados – pareciam que o fora. Siné achou muito
engraçado, muito espontâneo, Maxi parecia muito feliz, mais do que
nunca, e seu sorriso ora quase que orbital, seus olhos em chama não
o deixaria mentir diante de tão grande evento: natural, original,
poético. Ao fim selaram um amor, uma aliança. E devido à demora,
quase que Maxi perdeu o avião, saiu um pouco do planejado. Dorva
estava preocupadíssima – ligando sem parar a Maxi. Até que ele
chegou e ela se sentiu aliviada.
- Cuida bem dele Dorva.
- Cuidarei como meu irmão. Não se preocupe Siné.
Siné abraçou calorosamente Maxi, em seus olhos o amor, em seus
olhos a saudade, em seus olhos uma história que parecia não ter
fim. O choro-riso inevitáveis. Olhar vivo de ambos: o amor celebrado
em de uma rica e transparente taça de cristal.
- Contigo vai meu coração.
As lágrimas em seu olhos marejados caíram timidamente, sua tez
resplandeceu, e uma indescritível fragrância floral foi sentida por
Maxi, as flores abençoando uma união.
A solidão
Siné sentiu-se muito só. Em seus primeiros dias sem Maxi ainda
ecoavam seus momentos de felicidade ao seu lado. Com o passar dos
dias o sol já não brilhava para ela da mesma forma. Nem os e-mails
de Maxi com as fotos dos lugares aos quais visitara conseguiam
colocá-la para cima.
Certo dia quando caminhava na rua, viu um senhor sentado na calçada.
Era um dia muito quente. O homem lhe pediu uma moeda para comprar
pão. Ela parou e enquanto procurava em sua carteira moedas o senhor
a interrompeu.
- Minha filha você está triste. Não se preocupe. (pausa) Ele
voltará.
Ela pegou as moedas e as entregou ao pedinte.
- Este homem não merece seu sofrimento.
- Como assim? – Indagou Siné.
(até aqui) - Ele trairá você com sua melhor amiga. – Meio que
sussurrou o homem com um imenso bafo de cachaça.
- O senhor não conhece meu noivo. Não me conhece.
- Não o conheço. Mas sei que ele não é fiel a você.
Siné sentiu um choque correr por se corpo. Sua garganta quase que se
fechou, seu coração palpitou. Suas mãos suaram. Sua mente
pedia-lhe que não contra-argumentasse, que nada falasse – afinal
era somente um bêbado – alguém fora de seu juízo normal. Mas,
tem coisas que a razão não explica, como o nosso corpo reage
instintivamente quando provocado.
- O senhor diz isso porque a maior parte das pessoas trai. Nós somos
muito felizes. Ele não vai me trair.
Num súbito impulso Siné deu por si e resolveu sair dali. “Esse
senhor está blefando. Quanto sou tola, dando importância ao que diz
esse bêbado.” Quando se afastou um pouco mais, o senhor insistiu:
- O escritor... O escritor vai te trair.
Aí foi o golpe final. Siné fitou profundamente aquele homem.
Formigava seu estômago. O medo apoderou-se de seus sentidos. E, ela
afastou-se rapidamente com os olhos marejados. A angústia. A dúvida.
“Não vou acreditar... Esse bêbado com certeza conhece Maxi... Ele
deve ter nos visto.” Assim pensava, assim esperava, assim rezava.
Mesmo tendo duvidado das palavras do mendigo – pelo menos era assim
que insistia em pensar – elas ecoavam em sua mente. Agora a dieta
era também de noites dormidas. Os seus livros lidos passaram a ser
os ultrarromânticos. A dor. A nostalgia. A fuga. Trabalhava o dia
todo e à noite se internava na leitura. Suas amizades se preocupavam
com ela, mas o telefone não o atendia. Os e-mails de Maxi ficaram
sem resposta e os colegas de trabalho entregavam inutilmente os
recados a ela. Os postais chegavam à sua casa esbofeteando-a como
uma imensa mão que trazia escrita em seus vãos dos dedos a palavra:
traição.
Siné resolveu conversar com o mendigo. Dias ela desviou o caminho em
que ele poderia se encontrar. Todavia, chegou o momento em que ela
enfrentaria seus temores. Aproximou-se da esquina em que ficava
aquela esfarrapada criatura – pensava-o assim por seu incrustado
ódio. Parou. Decidiu retornar e não o enfrentar. “Não.
Decididamente preciso ir.” O mundo nesta hora girou. Quase
desmaiou. Sentia as veias do corpo inteiro, seu coração a pulsar
fortemente. Seus braços estavam formigando. Passa uma moça com
olhar assustado e pergunta a Siné ali parada.
- Tudo bem com você?
- Só estou um pouco enjoada. Isso pode ser gravidez minha filha. -
Sorriu a moça.
Sentou-se havia esquecido da possibilidade de gravidez.
- Não, não é minha senhora, estou em dia.
- Então pode ser o sol minha filha. Se alimente com comida leve.
Beba muita água. Aliás já te trago um pouco de água pra você. –
Assim entrou a senhora na lanchonete trazendo em seguida água a ela.
- Obrigada minha senhora pode deixar estou melhor.
Siné recuperou-se um pouco e decidiu continuar no empreendimento.
Quando virou a esquina olhou o senhor que estava sentado no mesmo
lugar que o vira antes. Ao observá-lo mais de perto, não o
reconheceu como sendo o mesmo daquele dia.
- Uma moedinha para o “veinho” minha filhinha.
- O senhor sabe onde está o homem que estava sentado aqui dias
atrás?
- Aqui é meu ponto minha filha. Não tem outro que pode ficar aqui
minha filha. É a lei da selva. Tudo para sobreviver. Depois eu
contribuo com a cachacinha para os irmãos. – Assim sorriu
largamente o senhor com muitas falhas nos dentes.
Siné insistiu.
- O Senhor me conhece?
- Já vi você passar por aqui. Mas nunca falei antes com você.
Difícil alguém me enxergar aqui minha fiinha. Ainda mais moça
bonita assim...
- Atônita Siné teve sua visão tolhida. Quase desmaiou.
- Tudo bem moça? – Perguntou um homem de terno que passava por
ali.
- Tô bem. Tô bem. – E saiu Siné apressada dirigindo-se à
ingreja.
Siné não entendia. Parecia estar alucinada. Vendo coisas estranhas.
Era a falta de Maxi? Era a dieta? Não conseguia resposta.
A resposta talvez estivesse nos livros. Mas em que livro? Mergulhou
na leitura sobre o assunto. Metafísica não era seu forte, mas aos
poucos ganhou força, apegando-se com santos e anjos para enfrentar o
momento.
Deixou-se esquecer do que havia ocorrido. Desligou-se da saudade de
Maxi. Embora às vezes ela a açoitasse. Suas Suas chagas: trabalhos
voluntários aos finais de semana. Assim distraía-se. E os dias
passavam.
A invisibilidade
Aquele dia ao se acordar sentiu-se diferente. A luz parecia-lhe mais
amiga que outrora. Conseguia - como se seu corpo fosse o fim de uma
aresta - ver as diversas cores da branca luz que lhe transpassava. A
corpulência desse evento distraía-lhe os sentidos. Notou suas mãos
diferentes – muito brilhantes. Sua face quase translúcida ao
espelho também refletia muito forte a luz. Ao sair à janela, um
beija-flor parou em sua frente, quase imóvel, tentou beijar-lhe os
lábios, o que conseguiu de leve. Ficou atônita diante de tal
acontecimento.
“Um beija-flor tentou provar de meu néctar.” Brincou consigo
mesma. Sentia como se formigas devorassem seu estômago. A luz,
agora, transpassava-lhe completamente. A fome se intensificava. A
saudade de Maxi, suas palavras. Precisava abrir seus postais, seus
e-mails. Decidiu em meio a tudo aqui – ir à tarde à uma lan
house. Era domingo, não trabalhava. Precisava ir ao parque, ir à
igreja. O abraço dos idosos um dia antes a reanimara, assim como a
umas palavras em sinal de gratidão e carinho de uma senhorinha de
cabelos azuis: “viva o amor como se ele fosse o único motivo de
sua vida, o tempo passa e só ele é a lembrança que mais nos
impulsiona a viver mais. Lembre-se disso, pois ainda vivo
intensamente aqui cada ato de amor que vivi (apontava para o
coração). Vale muito a pena, pode ter certeza, pois é uma das
poucas que tenho”. Sentia uma imensa vontade de sair. Apressou-se
em se arrumar. Foi apanhar a escova dental, segurou-a, mas ela caiu.
Achou natural “escorregou”, pensou. Continuou logo após
arrumando-se. Ao tentar fechar a porta caiu-lhe da mão a chave.
Tentou pegá-la quase que não conseguiu. No entanto, teve
dificuldades, mas fechou a porta – a esse momento o medo e a
loucura eram tolhidos por um resquício de sobriedade que não deixa
nós pobres mortais acreditarmos em coisas do gênero. “Que está
acontecendo??!!” – indagou Siné. Descartou a loucura, ignorou o
fato e seguiu. Viu ao longe uma colega de trabalho. Ao se aproximar a
mesma não a viu. O que foi autojustificado como sendo sua amiga
“orgulhosa. Finge que não vê as outras pessoas. Normal isso hoje
em dia. Falsas amizades, falsos colegas.” O padre de sua paróquia
– amigo de Siné – também não a enxergou. Aliás, todos
pareciam não enxergá-la. “Opa, opa, opa, tem algo de estranho
aqui!.” - Sentia alguma coisa que não sabia bem o que era. Ela só
sabia que isso não era o que deveria sentir. Nesta situação os
sintomas de um ataque de nervos seria o mínimo razoável. Mas... não
era o que estava acontecendo com ela.
Vinha-lhe uma outra colega de trabalho em sua direção e - esta
daria graça se não a visse mesmo - o que acabou acontecendo. Queria
chorar. Não conseguia. Gritou, ninguém a ouviu. Olhou-se: o corpo
em luz, radiante, muito belo. Seus pés levitavam. “Subliminar”
pensou. “Agora sou um anjo” - não deixando de lado seu censo de
humor. “Que sonho mais demoradinho esse!” devaneava ironicamente.
No fundo, ela pensava-se num sonho. Aparentemente não era. E esse
frio da dúvida corria-lhe pelo seu subliminar corpo.
“Cadê meus sentimentos? Se dissiparam com... com... – não sabia
definir. – Deve ser... isso?!” Que êxtase. Sentiu-se inebriada.
As pessoas ao seu comando andavam devagar, bem devagar.
Pensou “Sei...! eu acho que... como é que eu vou dizer isso?
Eu...” Resolveu não dizer o que achava o que tinha ocorrido. Mas
então deve se igual aquele filme “O sexto sentido”. Então...”
Parou na praça em frente à fonte e ao velho ipê. Voltou no tempo
na noite de lua cheia e viu-se sendo iluminada. Viu-se bela. Viu-se
plena... A solidão a deixou. Cada pessoa que passava perto dela
agora a alimentava. Seus sabores corriam - como se fossem essência –
aos seus olhos. Suas dores, felicidades e angústias. Escutava-lhes
seus pensamentos – quando assim desejava. Tudo isso a aturdia, mas
não a incomodava. Andou, viajou, viveu de forma diferente. Sentiu
prazer no canto do pássaro o qual contou com sua presença por
alguns instantes. Se emocionou ao ver vida no ninho e a mãe
alimentando seus filhotinhos. Continuou andando na rua. Ao passar
pela esquina em que tinha visto o mendigo, o avistou novamente. Ela
parou em sua frente. Encarou-o com coragem, mas ele abaixou sua
cabeça. Conferiu - não foi o segundo que negou conhecê-la. Ela
parou poucos instantes ali. O senhor lhe dirigiu a palavra:
- Você ainda tem dúvida minha filha?
- O senhor consegue enxergar-me?
- Sim até seu lindo interior.
- Procurei o senhor novamente, mas não estava aqui.
- Eu estava aqui. Você não me enxergou. Éramos dois.
- Então...
Um silêncio imperou. Siné resolveu não entender o que havia
realmente ocorrido. O fato é que ela conseguiu vê-lo. As indagações
eram menores que ânsia de talvez aproveitar o estado em que se
encontrava: feliz, em paz.
- O que está acontecendo? O senhor quem é?
- Você estava muito confiante em um amor e eu resolvi testá-la.
Hoje poucas pessoas amam de forma que você está amando. – A face
do senhor era tão expressiva quanto suas palavras, como um druida
respondia Siné com sabedoria e paciência.
- Eu o amo muito...
- Você quer vê-lo?
- Sim muito.
- Então que se faça.
Tudo se espiralou ao seu lado em fechos de luzes multicolores.
Pararam em frente à janela do apartamento em que estava hospedado
Maxi. Pela janela Siné observou Maxi abraçado com Dorva. Neste
momento compreendeu as palavras que a alertavam à traição. Mas não
se enfureceu, apenas observou. Não entendeu porque a fúria não
invadiu seu coração que parecia bloqueado. Ficaram ali alguns
instantes.
- Nos aproximemos mais.
Ao se aproximarem ela viu que Maxi chorava. Durva Consolava.
Abraçados Maxi afirmou:
- Siné. (pausa) – O que aconteceu com ela?
Em um repuxo tão forte Siné e o misterioso homem saíram dali.
Retornaram à esquina. Siné fitou o senhor, pegou a sua mão,
beijou-lhe a face e atônita retirou-se.
Em frente à igreja sentada sentia os primeiros pingos de chuva. A
chuva engrossou e a água começou a lhe trazer de novo à
materialidade. Pouco tempo depois a mãe e a criança que ela havia
acompanhado no ônibus se aproximaram e a menina ao colo da mãe lhe
sorriu, jogou-lhe um beijo com as mãos, sua mãe não percebeu o que
ocorria.
Siné seguiu para casa. No caminho desmaiou. Uma mão quente
tocou-lhe à face. Abriu lentamente os olhos e com um sorriso um
médico - com a mesma face do mendigo – lhe falou:
- Você menina precisa se alimentar... (sorrindo brincou) agora você
precisa comer por dois.
(20/11/2009)
Também publicado no Livro "Devaneios em Prosa, 2011, Editora Unicentro. LIMA, Marcio."
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