Na clareira, sob a luz dourada dos lampiões, a festa parecia não ter fim.
O som do violão espalhava-se pela noite, misturando-se às risadas, aos passos dos dançarinos e ao murmúrio antigo da floresta. Era noite de lua cheia, dessas em que o rio parece guardar segredos e a mata parece observar os homens.
Entre tantos rostos, um jovem permanecia distante, preso a um único olhar.
Era uma moça de olhos azuis, estrangeira àquela terra e àquela gente. Sentada à margem da festa, acompanhava sozinha o movimento dos pares que dançavam, como se seu pensamento estivesse muito além daquela clareira.
O rapaz a observava desde o primeiro instante. Havia algo nela que o encantava: uma tristeza silenciosa, uma beleza diferente, uma presença que parecia pertencer mais à lua do que à terra.
Próximo da meia-noite, enquanto todos ainda celebravam, a moça levantou-se.
Olhou para a imensidão escura da mata.
Por um breve momento, pareceu ouvir um chamado que ninguém mais escutava.
Então, sem despedir-se, caminhou sorrateiramente entre as árvores.
O jovem, tomado pela preocupação e pelo sentimento que nascera naquele primeiro olhar, seguiu seus passos.
A floresta o recebeu com seus sons profundos.
Folhas quebradas.
Galhos movendo-se.
Um silêncio pesado.
Até que um ruído rompeu a escuridão.
Uma fera.
Grande, feroz, tomada pela força da mata.
Ao ver o rapaz aproximar-se da moça, a criatura avançou.
O jovem, assustado, levou a mão à arma.
Não compreendia o que acontecia. Via apenas perigo. Via uma fera diante daquela que já havia conquistado seu coração.
Num instante, puxou a arma.
Mas antes do disparo, algo o fez hesitar.
A fera aproximou-se da moça.
E então aconteceu o impossível.
Eles olharam um para o outro.
Não havia medo naquele olhar.
Havia dor.
Havia saudade.
Havia uma história escondida que o rapaz jamais poderia imaginar.
A moça chorou em silêncio.
Suas lágrimas desceram pelo rosto e, refletidas pela lua cheia, pareciam pequenas estrelas caindo sobre as águas do grande Amazonas.
O jovem permaneceu escondido entre as árvores.
Esperava.
Temia que qualquer movimento despertasse a fúria da criatura.
A lua, naquela noite, parecia mais intensa do que nunca. Seu brilho transformava o rio em espelho e revelava uma cena que talvez nem a própria natureza estivesse acostumada a testemunhar.
Para o jovem, era um momento de terror.
Para a floresta, era apenas mais uma página escrita pelos mistérios do mundo.
Pois a vida, às vezes, pede socorro onde os homens só enxergam ameaça.
O amor tenta vencer aquilo que foi imposto.
O ódio antigo.
O orgulho.
O ciúme.
As diferenças criadas por aqueles que acreditam que sangue, riqueza ou origem podem separar destinos.
Diziam que aquele amor jamais poderia existir.
Um era pobre.
Outro carregava o peso de uma família poderosa.
E entre eles havia uma velha rivalidade, uma guerra silenciosa herdada de gerações.
Uma separação decretada por homens que não entendiam que alguns sentimentos nascem antes mesmo das palavras.
A dor aprisionou aquele amor.
Mas o amor ainda resistia.
O jovem, tomado pelo medo e pelo desejo de proteger a moça, decidiu agir.
O disparo ecoou pela floresta.
Como pequenos vaga-lumes de fogo, as faíscas cortaram a noite.
A suçuarana caiu.
O silêncio tomou conta da mata.
Mas não era o silêncio da vitória.
Era o silêncio da perda.
A moça correu até a fera e caiu ao seu lado em desespero.
Chorava como quem perde uma parte de si mesma.
Então, diante dos olhos do jovem, aconteceu outro mistério.
A criatura, ferida, já não parecia apenas uma fera.
Em seus olhos havia humanidade.
Havia sofrimento.
Havia despedida.
Como se por trás daquele corpo estivesse escondido um homem condenado por uma antiga maldição.
A moça tocou seu rosto.
A suçuarana olhou para ela uma última vez.
E naquele olhar havia perdão.
Ela então caminhou em direção ao rio.
Antes de partir, olhou para trás.
Viu seu amado em seu último suspiro.
Depois, já não caminhava.
Seu corpo parecia leve como a neblina que sobe das águas.
E, envolta pelo brilho da lua, foi conduzida pelas mãos misteriosas da Mãe-d’água — metade mulher, metade encanto, guardiã dos segredos dos rios.
A floresta guardou aquele adeus.
O jovem valente nunca mais foi encontrado.
Alguns dizem que desapareceu consumido pela culpa.
Outros dizem que a própria mata o levou para guardar o segredo daquela noite.
Mas até hoje, nas noites de lua cheia, contam que uma mulher de olhos azuis aparece nas águas tranquilas do Amazonas.
Chora pelo amor perdido.
Chora pela promessa que nunca se cumpriu.
E os mais antigos dizem que suas lágrimas ainda brilham no rio, porque alguns amores não morrem, apenas se transformam em mistério.
[Marcio Lima]
Conto reescrito nesta data. Original disponível em: https://devaneiosliterariosdolima.blogspot.com/2012/07/lenda.html