quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Miragens...

Ao alto
Um assalto...
No chão
Um coração...
Na cabeça
Uma peça...
Lá vai o bonde,
ouviu conde?
Vende-se um gigante
Que cospe o puro carbono
Sem dono e barato...
Vende-se um trem
Que mal tem?
A graxa e a lama
O portão no trilho...
E a estrela
Que fizeram com seu brilho?
Vai ao longe um menino chorando
Fome, sede, pátria, folha branca, vai gritando...
Desmorona a esperança
Alguém pede o açoite
Anoiteceu, 
Busque um novo pernoite...
Maria, Joana, Elza, Esperança...
Tragam, antes que tudo se perca,
Por favor, uma linda criança!
Marcio J. de Lima


ORFANATO
Havia um pequeno ali esquecido. Tantos padrões, poucas almas. O tempo corre. Um coração se apequena. Cresce infinitamente a solidão. Um adulto nasce parido no amargor dos dias que se sucedem ao som do tic-tac. Um corpo anda pela cidade... Somente corpo. Em qual orfanato andará sua alma?
Marcio J. de Lima

 

Mais uma utopia...

Não quero um mundo desigual.
Não quero pessoas morrendo desassistidas.
Nem a violência imperando nas ruas.
Não quero o preconceito!
Nem a desesperança dos que dizem não tem mais jeito.
Não quero o egoísmo que mata.
Nem que tombem todas as matas!
Não quero a cópia barata.
Quero um gosto novo a partir do que já se tem... nossa história a ensinar... os mesmos erros pra quê?
Quero crianças brincando em paz nas praças.
Ricos, pobres, miseráveis, não mais...
Quero-os todos iguais.
Leito para todos nos hospitais.
Educação humanizadora, respeitadora, educadora...
Quero pais sendo pais, mães sendo mães e todos responsáveis por todos...
Quero o amor como pedagogia.
A prática deste, como práxis vivificadora.
A consciência de nossa irmandade, pacificadora...
Somos um, 
somos um, 
somos um...
Pensando assim retardaremos um grande buuummm.
Marcio J. de Lima
13/02/2018

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Por que lucidez?

Se a loucura é o fim
Tentarei na mais pura lucidez
Percorrer essa estrada
Não me perderei
Na falta de caminho
Sim pararei
Mas a cada pedra
Que servirá de acento
Mirarei o horizonte
Feliz, por ter caminhos...
O céu, nas torpezas, será meu abrigo...
Descansarei, não esmorecerei...
Direi ao meu íntimo, sigo.. 
Farei do amor minha loucura...
Meu fim, a ele,
Na mais lúcida loucura,
Digo: sim!

Marcio J. de Lima
08/02/2018

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Música “Um índio” de Caetano Veloso, algumas impressões


(Marcio J. de Lima)
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            No poema/música em questão, Caetano Veloso trabalha com a temática indígena, reatualizando alguns de seus aspectos histórico-mitológicos. A temática, do indígena tratado como herói; símbolo de uma nação que por muito tempo esteve subjugada a um domínio de colonização; esteve presente durante o Arcadismo brasileiro, retomado pelos escritores românticos e reafirmada pelos modernistas. Ao reatualizar esse tema, Caetano provê, poeticamente falando, este herói de alguns recursos tecnológicos, mas que supera os advindos das descobertas da ciência moderna, dando-lhe características fantásticas, típicas dos heróis mitológicos.
            Também ainda, nesse poema, Veloso situa a qual nação indígena refere-se a aparição desse ser heróico-mitológico, os do coração do hemisfério sul, na América (do Sul) em um ponto equidistante entre os oceanos Atlântico o Pacífico. A referência temporal não é em qualquer momento, é em um claro instante, logo após exterminada a última nação indígena. Podendo-se assim inferir que seria em um momento de luz, esclarecedor. No entanto, poderia ser relativo ao do extermínio físico dos indígenas ou pela miscigenação dos mesmos e do desaparecimento de suas características culturais. Enfatizando para o fato do possível extermínio desses povos, bem como de sua cultura. E, a luta desigual para permanência dessas nações coabitando com a dita “civilização”.
Há ainda, uma intertextualidade às escrituras bíblicas, em que há a relação ao messias que voltará no fim dos tempos. Esse voltar, relativo ao índio, poderia ter talvez a relação com o próprio Cristo, o qual àquele adquire sua semelhança, que se compadece com os mais fracos, com os explorados, com os dizimados pela exploração ou expropriação de suas terras e ou riquezas. Essa ideia é reforçada na parte em que Caetano Veloso diz “virá que eu vi”. Veloso, pelo seu eu-lírico, assume um papel do profeta, que vê algo grandioso acontecer antes do seu tempo. Isso tudo, pode ser reforçado pelas predições do personagem Peri, herói do livro Iracema de José de Alencar, citado na música, quando afirma: “ — Tu viverás!... Cecília abriu os olhos, e vendo seu amigo junto dela, ouvindo ainda suas palavras, sentiu o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.” (Alencar, 1857)
            Retomando a temática, o índio como herói. Isso aconteceu muito quando de nossa história, nos momentos relativos à busca pela identidade do povo brasileiro, em que a “criação” literária desse herói representasse esse povo e sua força identitária. Isso é retomado no poema de Caetano, quando citou Peri, o qual possui habilidades sobre-humanas da força, proximidade com Deus (Cristão), lealdade ao seu amor Ceci (amada Europeia, filha de D. Antônio Mariz) e o poder de conversar e interagir com  natureza, reatualizando por esses aspectos o mito do herói nacional brasileiro.
            Caetano Veloso ressalta quais são as características desse herói de nossos dias, de fim de século XX sendo: impávido, tranquilo, apaixonado por seus ideais e que buscará a paz.

            Assim, Caetano conclui em seu poema que este herói esteve sempre presente, nunca desapareceu e sua presença é óbvia, podendo-se concluir que o mesmo vive em nós através da miscigenação, da aculturação com outros povos ou nações, entre eles o negro, quando cita os termos “afoxé, axé” palavras de origem africana. Essa mistura racial, tornou o povo brasileiro apaixonado pela natureza e suas belezas, tanto cantadas por nossos poetas, bem como de seu “poder” de superar todas as forças que poderiam dissuadir um pensamento nacional, no qual o indígena sempre, para nós brasileiros, será uma forte referência de nossa  nacionalidade.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Um dia desses, eu e eu...

Um dia eu me senti eu. Isso não é muito comum. Joguei fora aquele sapato que me apertava o pé, aquele que meu vizinha usava um igual e me custou os olhos da cara. Joguei fora os excessos de palavras difíceis, resolvi falar a língua dos meus vizinhos, pais, família, das crianças que passavam na rua, daqueles que não têm a muitos com quem falar. Sobretudo, joguei a feia mania de mais falar do que ouvir. Sentei debaixo de uma árvore. Apreciei o horizonte e o azul claro do qual ele se enfeitou. Saboreei a leve brisa que me inspirou um pequeno poema que saiu espontâneo... não profundo, porém espontâneo. Não quis decorar as palavras que podiam me aprisionar. Como disse quis ser eu... Queria entender o que é um encontro comigo mesmo... Estava precisando disso. Mas confesso, outros pensamentos começam a entrar na conversa... Então como estava falando... Hum... hum... hum...
Marcio J. de Lima

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Mexeriqueira luz

E o tempo abracou-se à mexeriqueira  luz
Antes fora às águas do
Doce Ribeirão..
Ali não haveria de passar
totalmente em vão
De ao menos servir de uma
demorada companhia
Num Alegre banho em uma
Límpida manhã de verão...
Marcio J. de Lima, Guarapuava - PR.
19/01/2017

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Um café e muito carinho...

Um dia como outro qualquer em que se poderia dizer, era uma vez... saiu Juditi com sua filha ao braço. Febre alta já fazia dois dias. Sem dinheiro para pagar consulta, e os remédios caseiros sem fazer efeito, a saída seria levar a Dona Josefa, curadeira famosa daquela vila. Era uma manhã fria, a menina estava bem coberta. Os olhos brilhantes pela força da febre e as boxexas rosadas, um calor ardente encostado no busto da magra mãe. O coração da guerreira mãe sofria. A menina apesar de tudo esboçava um sorriso amarelo, e dizia com uma voz cansada: "não ti propupe mamãe!" Tais palavrinhas soavam com uma injeção de ânimo, o coração dessa guerreira mãe se acalmava e fazia-lhe reacender a esperança...
Ao chegar na velha casa de madeira ao lado de uma rua qualquer, a mãe bateu à porta. Lá de dentro uma voz rouca e grave de senhora bradou "já vai!" Seguido de uma tosse carregada. Um cachorrinho preto debaixo do soalho observava as duas. Não latiu, somente a menina havia percebido tal bichinho. Puxou a gola da mãe, a qual olhou de pronto, mostrou-o à mãe apontando seu magro e pequeno dedinho de fadinha... A mãe olhou a criaturinha e percebeu naquele cachorrinho um doce olhar. Não estava acorrentado. Notou mais ao fundo um pelego de carneiro que se fazia cama quente ao cão.
A porta rangendo meio que presa se abriu. Dona Josefa estava com uma toalha envolta na cabeça, tal qual um turbante. Falou: "entrem! Saiam desse frio. Eu já faz uns quatro dias que quase não ponho a cara fora de casa. Tô com uma gripe terrível. Mas tô melhorando graças a um xarope caseiro de guaco e mel".
A mãe sorriu meio amarelo.
"Mas... o que as traz aqui? Com certeza não é para comer os meus doces... Que tenho aqui aos montes." Falou isso  pegando um pirulito para dar à menina. A menininha só sorriu encostou a cabeça na mãe, como se escondendo, mas pegou o doce.
"Que menina linda! Que você tem?" Interrogou a senhora.
A mãe explicou. Ela ouviu atentamente.
"Hum... vou fazer um café e já vejo que você tem", disse isso explicando o princípio de seu método de busca pela cura.
Contou de sua luta para se aposentar, enquanto a água fervia. Passou lentamente o café no coador de grosso tecido, aquele cheiro era delicioso...
 Falou para mãe... "se o café tivesse o mesmo gosto de seu cheiro, seria a melhor bebida do mundo..." riu... A mãe também riu concordando.
Na mesma hora, ofereceu à menina um copinho com café com uma colherzinha de manteiga, adoçado com mel...
"Tome menina, isso vai ajudar a te proteger de gripe." Filosofou a sábia senhora.
A mãe apanhou o copo, esfriou um pouco e deu à sua filha.
"Hum... o cheiro está muito bom." Falou a mãezinha.
A senhora deu uma xícara à mãe, mas adoçado com açúcar mascavo.
"Café minha filha tem ciência, se você tiver paciência você extrai dele seu melhor. Água no ponto e quantidade de pó adequada você terá uma ótima bebida."
Pôs o restante de que ficou no bule, logo após tirar uma xícara para si, em uma velha garrafa térmica.
O coador ficou sobre uma pia. Dona Josefa o apanhou retirando de lá uma mão de pó. O qual foi atirado a uns 15cm em cima de um prato Branco com um pouco de água. A mulher ficou a olhar o pó, como se o tivesse lendo seu comportamento. Após uns dois minutos olhou para mãe e disse:
 "A menina só está resfriada. Ela estará bem melhor amanhã!" Falou isso com um rosto oleoso e brilhante.
A mãe sorriu, como que tranquilizada...
A senhora apanhou um pouco de guaco ressecado e deu à preocupada mãe. Perguntou se ela tinha mel, a qual acenou com a cabeça que sim.
Despediram-se não cobrando nada pela consulta. A mãe agradeceu de coração.
O dia se passou, a mãe fez o chá e deu à menina. No tempo previsto a menina melhorou...
O tempo se passou, a menina cresceu... Mas jamais esqueceu daquele gostoso café que tomara naquela fria manhã em que ardia de febre... Jamais esqueceu do doce que residia naquele enorme coração daquela senhora que a recebera com todo carinho na mais rica demonstração de amor ao próximo.
Marcio J. de Lima
Guarapuava, 05/01/2018.

Miragens...

Ao alto Um assalto... No chão Um coração... Na cabeça Uma peça... Lá vai o bonde, ouviu conde? Vende-se um gigante Que co...