segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Um homem caído no chão


Há um homem caído no chão. Quem se importa? Bala ao peito. Sangue pintando a calçada. Um sonho estendido no chão, uma esperança... Em casa filhos riem inocentes. Um sonho desenha no piso sua silhueta. Mas quem se importa? Todos passam apressados, resignam-se com a lentidão do trânsito, com a ignóbil figura, raquítica, de mãos encouraçadas, de mochilas nas costas, com sua térmica quebrada, marmita com um resto de comida dando nojo nos transeuntes. Envergonha-lhes. O ônibus vomita pessoas... Aos chutes o corpo anda. Que culpa tinha este cristão? Todos atônitos com seus anseios bradam “liberem a rua!” ”já é hora de minha novela.” “Logo começa o jornal.” Todos seguem... A chuva cai e lava o sangue... Lava a discreta cal que ainda permeia nas mãos de nosso pitoresco herói. O corpo está só. Jogado à rua em frente à igreja. Ouvem-se primeiras cantigas cantadas pelas beatinhas, pontualíssimas às sete horas da noite... O sino toca... A plateia canta animada o canto de acolhida. Uma criança desobedece a mãe e sai correndo na chuva levando em suas pequeninas mãos um cartãozinho com o retrato de Nossa Senhora do Guadalupe. Ela para tristemente em frente àquele moribundo corpo, deposita em suas mãos a santinha. A mãe preocupada com a filha, dissipa-lhe qualquer vestígio de realidade, grita quase que desesperada agarrando a mão da pequenina “venha aqui filha o titio já sara!” A criança olhando para trás joga um singelo beijo àquela figura. A celebração continua calorosa.

(Marcio J. de Lima) 02/05/2011

2 comentários:

  1. A frieza e indiferença humanas (desumanas) são estarrecedoras.

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    1. Com certeza Sergio. Quisera fosse um retrato somente ficcional, todavia a arte imita a vida ou vice-versa, caindo em um clichê clássico para ilustrar a frieza que ronda nossos dias. Obrigado pela participação e contribuição. Um forte abraço!

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