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sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Despeja-me Senhor de minha primeira casa!
BOTECO (Título original)
Ali seu mundo.
Chamam-no de João. Mas para ele tanto faz. Mal não faria se o chamassem Raimundo, Beltrano, Sicrano ou até mesmo José.
Pé de Boteco cravado em uma rodovia qualquer – fachada velha, ares decadentes, risadas soltas, conversas repetidas, lorotas cambaleantes, fígados rotos, famílias em frangalhos – esse era o locos amoenos de meia centena de trabalhadores a fugir da realidade familiar, do trabalho, da crise social, da crise da comunicação, da crise mundial; ali tudo se podia, tudo se fazia, tudo se resolvia.
“Desce mais uma!” e a conversa corre solta.
“Ele é bom!” dizia o moreno sentado ao canto solitário do extenso balcão – elogiando, talvez seu distante amigo imaginário de outrora.
Os causos que a todos faziam rir esgotam-se com a luz do vaga-lume na sombria noite de lua nova.
As aventuras são as mesmas desde que à primeira vez pisou naquela tortuosa casa de álcool e smoke.
Ao esvaziar-se o último copo, João paga sua dívida com a palavra. E o bar o cospe passando por suas tortuosas escadas movediças e voadoras.
O pé nas nuvens, ainda a escutar seus amigos imaginários.
Segue para sua segunda casa. Lá, mais do que nunca: rei. Bate à mesa. Ruge. Cospe-se. Reclama-se. O lampião já não lhe serve, pois seu líquido queima-lhe a garganta.
Os guris? A amada? Sem brincadeiras, sem poesia, sem o quente beijo.
“Onde aprende essa língua?” – reclama a esposa.
“Como é engraçado o papai, mamãe. Sempre nos traz doces. Como ele é bom!”
E o céu acende mais uma centelha de esperança. O dia pula cedo da cama.
Acende-se o fogão velho. O café e o pão surrado na mesa. O lombo surrado de um honesto trabalhador, na cadeira. O velho beija sua rainha. E com um olhar arrependido clama a Deus um golpe de misericórdia “despeja-me Senhor de minha primeira casa!”
(Marcio J. de Lima – 02/12/2010).
Imagem obtida em:http://hadamlima.blogspot.com.br/2009/02/o-enfermeiro-o-douto-e-o-acidente.html, 18/10/2013.
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